Passamos o começo da tarde enchendo uma das máquinas voladoras de todo tipo de suprimento que achamos. Mas não havia quase nenhum ingrediente para levar. Quando terminamos, procuramos Grigrapreti: queríamos uma refeição, antes de partir.
- Já está sendo providenciada - ele disse, quando o encontramos. - Haverá mais uma pessoa presente...
Eu o reconheci, imediatamente, apesar de não saber seu nome. Tínhamos conversado diversas vezes, quando ele ainda era nosso prisioneiro na cidade de metal.
Ele se chamava Grebrerão.
Cumprimentou-nos com certo agradecimento no olhar, e percebemos rapidamente que ele estava bem melhor do que quando foi capturado na floresta sempre-viva.
- Nunca tive a estrutura mental para lhes agradecer quando me soltaram. - ele disse, se curvando. - Faço isso agora!
Sentamo-nos e começamos a comer. Ele apenas nos observava.
- Vão querer saber o que eu vi lá... - ele disse, após alguns instantes. Demo-nos conta de que a pergunta estava em nossas bocas, mas não achávamos meio de formulá-la.
Estão todos mortos... Nós os atravessamos com lanças e facas, mas não corria sangue em suas veias. No auge do desespero, alguns de nós morderam o exército de condenados. Contraíram doenças terríveis por isso.
Mesmo quando moíamos seus corpos com porretes, eles continuavam a se mover. Alguns não eram mais do que poças putrefatas no chão. O exército da morte, conquistando tudo ao seu redor.
Um dia - meus olhos ainda ardem ao lembrar - entramos num descampado. Nossos pés levantavam pequenas nuvens de poeira ao andar. Quando chegamos ao meio do descampado - sem que houvesse nenhum vento! Sem nenhuma maldita brisa! - todo o pó se levantou, em rodopios! Ele nos envolveu, entrando em nossas fossas nasais, em nossos olhos e bocas, nos nossos poros amaldiçoados! O pó, em nossas bocas, sabia a cinzas e suor. Vi todo meu batalhão cair e corri para longe. Para minha sorte, achei um rio e me joguei nele. Juro ter ouvido um suspiro de lamentação quando o pó que me cobria se desprendeu de meu corpo e foi levado pela água. Fiquei ali embaixo da água por todo o tempo que pude - dois, três dias, talvez. Sempre que pensava em sair, temia o solo seco.
Foi assim que fui encontrado e mandado embora dali.
Um fio de baba escorria-lhe pelo canto da boca. Ele estava estupefato pelas lembranças. Deixamos Greberão em paz. A noite já caía.
Fomos para nosso quarto. No início da madrugada, Prosfrus nos chamou, um a um.
O caminho até as máquinas voladoras estava sem nenhuma vigília. Entramos na máquina que havíamos carregado e Prosfrus puxou com força a corrente que deveria acionar o mecanismo.
O grande rolimã na ponta do ovo se moveu, fazendo as tiras flexíveis rodarem de forma engraçada, como um polvo nadando em círculos. Ajudamos Profrus a puxar a corrente e, da segunda vez, o rolimã começou a rodar com velocidade. As tiras abriram-se como hélices, depois se curvaram para trás envolvendo o ovo e uma sensação de desequilíbrio nos fez perceber que flutuávamos.
Passamos por cima das muralhas de vidro um instante depois. Bea e eu estávamos exaustos e acabamos dormindo, enquanto Prosfrus fazia a máquina se dirigir para o sul.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Crevatolf - Cap. 19
No começo de nosso terceiro dia na cidade, acordamos com uma agitação tensa. Saímos da ala de convidados da casa central e andamos até os escritórios oficiais. Ouvíamos choro e raiva lá fora. Tememos que a resposta de TayFor tivesse chegado e não fosse favorável a nós mas, para nossa surpresa, aconteceu o contrário, de certa forma.
Fomos recebidos por Grigrapreti com um sorriso amarelo e ansioso. O metagorfo que víramos partir, três dias atrás, descansava no fundo do salão onde o líder dos bugrerões nos recebeu.
- Estamos reunindo um esquadrão para acompanhá-los. - Grigrapreti disse. - TayFor pediu que os ajudássemos.
Nós trocamos olhares. O bugrerão continuou.
- Devo assumir que não é tarefa fácil. Nenhum dos nossos quer ir para lá, depois que os poucos sobreviventes voltaram, enlouquecidos pelo que viram. Nossa tribo costuma ser de gente valente, mas o que se enfrenta no sul não é natural...
- E o que você pode nos oferecer de transporte? - perguntou Prosfrus.
- Máquinas voladoras.
Eu nunca tinha ouvido falar nelas e, pela expressão de dúvida no rosto de Bea, percebi que ela também não. Mas Prosfrus e Trestede pareciam empolgados.
Então Prosfrus sugeriu que fôssemos ver as máquinas, acompanhados de Trestede. Ele ficou com Grigrapreti.
As máquinas voladoras eram do tamanho de um elefante. Haviam várias e percebemos que cada uma poderia levar cinco pessoas. Lembravam ovos de vidro, deitados, mas, na parte da frente do ovo, presos a uma espécie de rolimã, várias tiras de um material estranho, que lembrava lona, tombavam até o chão. Através do vidro, víamos diversos mecanismos interligados, além das cadeiras para que os passageiros sentassem.
Depois de alguma tempo, Prosfrus voltou a se juntar a nós.
- Partimos hoje a noite... - ele disse. - Tudo o que precisamos será colocado em uma das máquinas.
Eu estava reflexivo.
- Acha uma boa idéia esse esquadrão de bugrerões nos acompanhar, Prosfrus?
Ele respondeu, sisudo:
- Vamos partir sozinhos.
Fomos recebidos por Grigrapreti com um sorriso amarelo e ansioso. O metagorfo que víramos partir, três dias atrás, descansava no fundo do salão onde o líder dos bugrerões nos recebeu.
- Estamos reunindo um esquadrão para acompanhá-los. - Grigrapreti disse. - TayFor pediu que os ajudássemos.
Nós trocamos olhares. O bugrerão continuou.
- Devo assumir que não é tarefa fácil. Nenhum dos nossos quer ir para lá, depois que os poucos sobreviventes voltaram, enlouquecidos pelo que viram. Nossa tribo costuma ser de gente valente, mas o que se enfrenta no sul não é natural...
- E o que você pode nos oferecer de transporte? - perguntou Prosfrus.
- Máquinas voladoras.
Eu nunca tinha ouvido falar nelas e, pela expressão de dúvida no rosto de Bea, percebi que ela também não. Mas Prosfrus e Trestede pareciam empolgados.
Então Prosfrus sugeriu que fôssemos ver as máquinas, acompanhados de Trestede. Ele ficou com Grigrapreti.
As máquinas voladoras eram do tamanho de um elefante. Haviam várias e percebemos que cada uma poderia levar cinco pessoas. Lembravam ovos de vidro, deitados, mas, na parte da frente do ovo, presos a uma espécie de rolimã, várias tiras de um material estranho, que lembrava lona, tombavam até o chão. Através do vidro, víamos diversos mecanismos interligados, além das cadeiras para que os passageiros sentassem.
Depois de alguma tempo, Prosfrus voltou a se juntar a nós.
- Partimos hoje a noite... - ele disse. - Tudo o que precisamos será colocado em uma das máquinas.
Eu estava reflexivo.
- Acha uma boa idéia esse esquadrão de bugrerões nos acompanhar, Prosfrus?
Ele respondeu, sisudo:
- Vamos partir sozinhos.
Crevatolf - Cap. 18
As Terras de Fogo haviam sido uma grande floresta, há muito tempo atrás. Mas os bugrerões haviam devastado tudo, enchendo o solo de minérios incandescentes. A floresta queimou e a terra fervia, formando rios de minerais derretidos, que os bugrerões utilizavam para soprar em maravilhosos vitrais.
Ainda assim, era difícil pensar em todas as árvores que haviam sido carbonizadas para isso.
Depois de andar por dois dias, vimos as imensas esculturas de vidro que circundavam Quatores. A fumaça da terra escaldante cobria o céu de nuvens plúmbeas que contrastavam com a vermelhidão do solo.
Era hora de saber se a bandeira nos fornecida por TayFor valia alguma coisa: os bugrerões eram conhecidos por sua agressividade e lealdade ao primeiro vizir.
Caminhamos pela estrada até a muralha de vidro, que era feita de tal forma que fazia os guardas parecerem monstros gigantescos a quem os observava de fora. Levantamos alto a bandeira e pudemos perceber os vigias se entreolhando.
- A comitiva da cidade de metal! - um deles exclamou, para nosso alívio. No entanto, o silêncio que se seguiu nos deixou ansiosos.
Por fim, o guarda voltou a falar:
- Onde estão os outros?
- Somos só nós, agora... - disse Trestede. - E precisamos de alguma ajuda.
Outro silêncio se seguiu, até que os portões se abriram. Prosfrus e Trestede entraram primeiro. Em seguida, entramos Bea e eu. Os bugrerões nos cercaram, mas sentíamos mais curiosidade do que animosidade neles.
Fomos levados à casa central, onde o líder morava, e tivemos que contar nossa história. Poucos instantes depois, eu vi um metagorfo voar pela janela e tive certeza de que TayFor estava sendo avisado do que estava acontecendo.
Prosfrus também percebeu e resolveu ir direto ao assunto, solicitando, o mais humildemente que podia, comida, montarias e ingredientes.
Mas Grigrapreti, o senhor dos bugrerões, fez questão que passássemos a noite para descansar.
No final do segundo dia, percebemos que teríamos que ficar lá até que o metagorfo voltasse: não éramos prisioneiros, mas nada nos era oferecido que possibilitasse que continuássemos a viagem. Trestede chegou a questionar Grigrapreti, que respondeu que eles estavam providenciando o que precisávamos.
Reunidos, à noite, resolvemos testar a sorte: esperaríamos o mensageiro voltar.
Ainda assim, era difícil pensar em todas as árvores que haviam sido carbonizadas para isso.
Depois de andar por dois dias, vimos as imensas esculturas de vidro que circundavam Quatores. A fumaça da terra escaldante cobria o céu de nuvens plúmbeas que contrastavam com a vermelhidão do solo.
Era hora de saber se a bandeira nos fornecida por TayFor valia alguma coisa: os bugrerões eram conhecidos por sua agressividade e lealdade ao primeiro vizir.
Caminhamos pela estrada até a muralha de vidro, que era feita de tal forma que fazia os guardas parecerem monstros gigantescos a quem os observava de fora. Levantamos alto a bandeira e pudemos perceber os vigias se entreolhando.
- A comitiva da cidade de metal! - um deles exclamou, para nosso alívio. No entanto, o silêncio que se seguiu nos deixou ansiosos.
Por fim, o guarda voltou a falar:
- Onde estão os outros?
- Somos só nós, agora... - disse Trestede. - E precisamos de alguma ajuda.
Outro silêncio se seguiu, até que os portões se abriram. Prosfrus e Trestede entraram primeiro. Em seguida, entramos Bea e eu. Os bugrerões nos cercaram, mas sentíamos mais curiosidade do que animosidade neles.
Fomos levados à casa central, onde o líder morava, e tivemos que contar nossa história. Poucos instantes depois, eu vi um metagorfo voar pela janela e tive certeza de que TayFor estava sendo avisado do que estava acontecendo.
Prosfrus também percebeu e resolveu ir direto ao assunto, solicitando, o mais humildemente que podia, comida, montarias e ingredientes.
Mas Grigrapreti, o senhor dos bugrerões, fez questão que passássemos a noite para descansar.
No final do segundo dia, percebemos que teríamos que ficar lá até que o metagorfo voltasse: não éramos prisioneiros, mas nada nos era oferecido que possibilitasse que continuássemos a viagem. Trestede chegou a questionar Grigrapreti, que respondeu que eles estavam providenciando o que precisávamos.
Reunidos, à noite, resolvemos testar a sorte: esperaríamos o mensageiro voltar.
sábado, 4 de outubro de 2008
Crevatolf - Cap. 17
Quando chegamos ao meio do planeta, éramos só cinco: Bea e eu, Trestede, Prosfrus e Tula, nos céus.
A cada dia uma nova disputa nos separava mais: um grupo dos plurinogorfos vendeu os crocofantes restantes para mercadores de animais escravos. Os plurinogorfos excluídos da transação discutiram e, de alguma forma, tudo acabou sendo nossa culpa.
E encontramos mais desejo espalhado por todos os cantos.
Para Trestede, era uma magia de cobiça, o que parecia fazer sentido. E o mandante começou a nos parecer óbvio: TayFor.
Os mágicos e os plurinogorfos discutiram por reconhecimento. Os últimos cornocorpóreos ficaram cheios e resolveram voltar para a floresta sempre-viva.
Um certo dia, todo o suprimento restante de ingredientes para magia desapareceu, junto com três dos mágicos. Por sorte, Bea e Trestede haviam enchido seus estoques pessoais. Mas ainda assim, não era suficiente para um feitiço de detecção, nem para um contra-feitiço.
Certa manhã, quando eu e Bea acordamos, todos haviam partido. Prosfrus, durante a noite, havia mandado os plurinogorfos voltarem para a cidade de metal. Trestede havia feito o mesmo com os dois mágicos que ainda estavam conosco.
- Eles iam acabar se engalfinhando. - disse Trestede. - Por mais que o feitiço possa estar afetando a nós quatro, ainda estamos juntos...
Com relutância, concordamos. Mas não era possível continuar a pé. Nem havia mágica o suficiente para nos fazer voar até o sul.
Até então, vínhamos buscando caminhos isolados, sem passar por cidades, para evitar os espiões de TayFor. Naquele dia, resolvemos desviar um pouco o curso e passar por Quatores, a imensa e escaldante cidade no centro do que conhecíamos como as Terras em Chama.
A cada dia uma nova disputa nos separava mais: um grupo dos plurinogorfos vendeu os crocofantes restantes para mercadores de animais escravos. Os plurinogorfos excluídos da transação discutiram e, de alguma forma, tudo acabou sendo nossa culpa.
E encontramos mais desejo espalhado por todos os cantos.
Para Trestede, era uma magia de cobiça, o que parecia fazer sentido. E o mandante começou a nos parecer óbvio: TayFor.
Os mágicos e os plurinogorfos discutiram por reconhecimento. Os últimos cornocorpóreos ficaram cheios e resolveram voltar para a floresta sempre-viva.
Um certo dia, todo o suprimento restante de ingredientes para magia desapareceu, junto com três dos mágicos. Por sorte, Bea e Trestede haviam enchido seus estoques pessoais. Mas ainda assim, não era suficiente para um feitiço de detecção, nem para um contra-feitiço.
Certa manhã, quando eu e Bea acordamos, todos haviam partido. Prosfrus, durante a noite, havia mandado os plurinogorfos voltarem para a cidade de metal. Trestede havia feito o mesmo com os dois mágicos que ainda estavam conosco.
- Eles iam acabar se engalfinhando. - disse Trestede. - Por mais que o feitiço possa estar afetando a nós quatro, ainda estamos juntos...
Com relutância, concordamos. Mas não era possível continuar a pé. Nem havia mágica o suficiente para nos fazer voar até o sul.
Até então, vínhamos buscando caminhos isolados, sem passar por cidades, para evitar os espiões de TayFor. Naquele dia, resolvemos desviar um pouco o curso e passar por Quatores, a imensa e escaldante cidade no centro do que conhecíamos como as Terras em Chama.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Crevatolf - Cap. 16
Gabel retomou a palavra:
- Não podemos perder mais ajuda... - ponderou Prosfrus.
- É algo mágico... - falou Bea. - Precisamos descobrir que feitiço é esse e quem está sob seu efeito, para quebrá-lo.
- Ainda tem ingrediente o suficiente para uma magia de detecção? - perguntou Prosfrus.
Não havia.
Assim, tivemos que optar por questionar os mágicos, como queria Trestede.
Foi desastroso.
Enquanto todos se acusavam mutuamente, descobrimos que nenhum deles tinha qualquer ingrediente consigo.
Isso só aumentou a discussão e logo os plurinogorfos foram envolvidos. Parte dos mágicos os acusaram de ter vendido os ingredientes.
Alguns sugeriram que haviam sido os humanos, mas Trestede garantia que ele mesmo inspecionara os tonéis depois que os humanos foram embora.
Nada foi resolvido naquela noite.
Quando acordamos, no dia seguinte, a maior parte dos cornocorpóreos e dos crocofantes havia desaparecido. Só restavam uss poucos que dormiam mais afastados do grupo maior.
Havia uma testemunha: um dos cornocorpóreos. Com ajuda dos plurinogorfos, que se comunicavam com esses animais, soubemos que, durante a noite, um gigante com um grande chapéu havia aparecido no campo e polvilhado algo nos animais. Depois, todos haviam seguido o gigante, como se ele fosse a melhor comida que já houvesse sido oferecida.
Ao investigar o campo, descobrimos Desejo espalhado pela grama. Alguém havia enfeitiçado os animais.
- Foi a Morte! - eu disse, reconhecendo o gigante de meu sonho na descrição do cornocorpóreo.
- Não diga besteira... - disse Prosfrus. - A morte não é um gigante de chapéu, é uma mulher...
- Não podemos perder mais ajuda... - ponderou Prosfrus.
- É algo mágico... - falou Bea. - Precisamos descobrir que feitiço é esse e quem está sob seu efeito, para quebrá-lo.
- Ainda tem ingrediente o suficiente para uma magia de detecção? - perguntou Prosfrus.
Não havia.
Assim, tivemos que optar por questionar os mágicos, como queria Trestede.
Foi desastroso.
Enquanto todos se acusavam mutuamente, descobrimos que nenhum deles tinha qualquer ingrediente consigo.
Isso só aumentou a discussão e logo os plurinogorfos foram envolvidos. Parte dos mágicos os acusaram de ter vendido os ingredientes.
Alguns sugeriram que haviam sido os humanos, mas Trestede garantia que ele mesmo inspecionara os tonéis depois que os humanos foram embora.
Nada foi resolvido naquela noite.
Quando acordamos, no dia seguinte, a maior parte dos cornocorpóreos e dos crocofantes havia desaparecido. Só restavam uss poucos que dormiam mais afastados do grupo maior.
Havia uma testemunha: um dos cornocorpóreos. Com ajuda dos plurinogorfos, que se comunicavam com esses animais, soubemos que, durante a noite, um gigante com um grande chapéu havia aparecido no campo e polvilhado algo nos animais. Depois, todos haviam seguido o gigante, como se ele fosse a melhor comida que já houvesse sido oferecida.
Ao investigar o campo, descobrimos Desejo espalhado pela grama. Alguém havia enfeitiçado os animais.
- Foi a Morte! - eu disse, reconhecendo o gigante de meu sonho na descrição do cornocorpóreo.
- Não diga besteira... - disse Prosfrus. - A morte não é um gigante de chapéu, é uma mulher...
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Crevatolf - Cap. 15
Naquela noite, resolvi tentar um encanto de detecção de magia. - Contou Bea.
Pedi a Trestede que me ajudasse e, assim que o sol se escondeu, fui até nossas reservas de ingredientes mágicos. Abri o tonel de luz, o elemento mais necessário para magias desse tipo e, para minha surpresa, ele estava quase vazio. Havia tão pouca luz lá dentro quanto na noite que nos cercava.
Aquilo me assustou. Corri para os outros tonéis. O de desejo ainda estava cheio, até o tampo, mas o de tempo também estava quase no final.
Trestede quis reunir imediatamente os mágicos, mas eu preferi conversar com Prosfrus e Gabel, primeiro. Queria incluir Prosfrus para melhorar o mal-estar da tarde.
Sentamo-nos em volta de uma fogueira e tentamos pensar.
- Há um sabotador... - sugeriu Trestede.
Prosfrus se inquietou:
- Conhecemos essas pessoas há muito tempo...
- Também conhecíamos os humanos... - reagiu Trestede. Prosfrus se calou.
Mas Gabel (eu ainda não sabia de seus sonhos) tinha outra teoria:
- Alguém pode estar influenciando, corrompendo nossos aliados.
- Quem? - perguntou Trestede. - E como?
- A Morte? Através dos sonhos? - Gabel respondeu, inseguro.
- Você acha que a Morte está tentando fazer o mesmo que Los? - perguntou Prosfrus.
- Vamos com calma... - interveio Trestede. - A Morte não tem interesse em outro reino, ela tem o reino dela...
A discussão se acirrou. Eu coloquei panos quentes, desviando o assunto para o roubo de suprimentos. Agora sei que deveria ter prestado mais atenção. Mas, naquele dia, achei que Gabel se deixara levar pela imaginação.
Pedi a Trestede que me ajudasse e, assim que o sol se escondeu, fui até nossas reservas de ingredientes mágicos. Abri o tonel de luz, o elemento mais necessário para magias desse tipo e, para minha surpresa, ele estava quase vazio. Havia tão pouca luz lá dentro quanto na noite que nos cercava.
Aquilo me assustou. Corri para os outros tonéis. O de desejo ainda estava cheio, até o tampo, mas o de tempo também estava quase no final.
Trestede quis reunir imediatamente os mágicos, mas eu preferi conversar com Prosfrus e Gabel, primeiro. Queria incluir Prosfrus para melhorar o mal-estar da tarde.
Sentamo-nos em volta de uma fogueira e tentamos pensar.
- Há um sabotador... - sugeriu Trestede.
Prosfrus se inquietou:
- Conhecemos essas pessoas há muito tempo...
- Também conhecíamos os humanos... - reagiu Trestede. Prosfrus se calou.
Mas Gabel (eu ainda não sabia de seus sonhos) tinha outra teoria:
- Alguém pode estar influenciando, corrompendo nossos aliados.
- Quem? - perguntou Trestede. - E como?
- A Morte? Através dos sonhos? - Gabel respondeu, inseguro.
- Você acha que a Morte está tentando fazer o mesmo que Los? - perguntou Prosfrus.
- Vamos com calma... - interveio Trestede. - A Morte não tem interesse em outro reino, ela tem o reino dela...
A discussão se acirrou. Eu coloquei panos quentes, desviando o assunto para o roubo de suprimentos. Agora sei que deveria ter prestado mais atenção. Mas, naquele dia, achei que Gabel se deixara levar pela imaginação.
domingo, 28 de setembro de 2008
Crevatolf - Cap. 14
Naquele momento fui tragado de volta ao mundo desperto pelos gritos de uma discussão. Os mágicos disputavam entre si sobre quem deveria se encarregar das provisões de luz, tempo e desejo que trazíamos. Eram como crianças, se acusando e, aos poucos, nos acusando de privilegiar um ou outro.
- Você ficou entre os dois príncipes por toda a viagem!
- Sim! Porque eles me preferem e confiam em mim!
- Isso é ridículo! Porque você os bajula todo o tempo! E tenho certeza de que os está espionando!
Nesse ponto, começaram a se empurrar e Bea teve que interceder. Mas nem houve tempo de acalmarmos os nervos, pois ouvimos os cornocorpóreos guinchando.
Tinham fome. Os crocofantes haviam avançado em sua comida durante a noite.
Percebemos que, após a partida dos humanos, ninguém havia lembrado de alimentá-los. Os plurinogorfos reclamaram da nova tarefa: não eram sua montaria. Os crocofantes se irritaram: não eram apenas montarias!
Bea me chamou a um canto, puxando também Trestede.
- Há algo errado aqui...
Lembrei imediatamente do homem nos meus sonhos, mas não tive coragem de dizer nada. A imagem do gigante, em minha mente, parecia frágil, esvaindo-se, como é comum ao despertar.
- Acha que é algum tipo de feitiço? - Trestede perguntou.
Antes que Bea pudesse responder, percebemos que Prosfrus nos olhava ao longe. Nós o chamamos, mas ele virou as costas e juntou-se ao grupo dos plurinogorfos que alimentavam crocofantes e cornocorpóreos.
- Seja lá o que for, parece estar afetando Prosfrus também... - eu concluí.
- Você ficou entre os dois príncipes por toda a viagem!
- Sim! Porque eles me preferem e confiam em mim!
- Isso é ridículo! Porque você os bajula todo o tempo! E tenho certeza de que os está espionando!
Nesse ponto, começaram a se empurrar e Bea teve que interceder. Mas nem houve tempo de acalmarmos os nervos, pois ouvimos os cornocorpóreos guinchando.
Tinham fome. Os crocofantes haviam avançado em sua comida durante a noite.
Percebemos que, após a partida dos humanos, ninguém havia lembrado de alimentá-los. Os plurinogorfos reclamaram da nova tarefa: não eram sua montaria. Os crocofantes se irritaram: não eram apenas montarias!
Bea me chamou a um canto, puxando também Trestede.
- Há algo errado aqui...
Lembrei imediatamente do homem nos meus sonhos, mas não tive coragem de dizer nada. A imagem do gigante, em minha mente, parecia frágil, esvaindo-se, como é comum ao despertar.
- Acha que é algum tipo de feitiço? - Trestede perguntou.
Antes que Bea pudesse responder, percebemos que Prosfrus nos olhava ao longe. Nós o chamamos, mas ele virou as costas e juntou-se ao grupo dos plurinogorfos que alimentavam crocofantes e cornocorpóreos.
- Seja lá o que for, parece estar afetando Prosfrus também... - eu concluí.
sábado, 20 de setembro de 2008
Crevatolf - Cap. 13
No sonho, eu estava sozinho em frente a um imenso muro que se estendia até se perder de vista. Atrás de mim, sons de guerra me davam a impressão de perigo constante. Cada um dos que nos acompanharam ao sair da cidade de metal estava agora morto.
Mas, no sonho, eu achava que minha irmã ainda estava viva, só que do outro lado do muro.
Eu tentava achar uma passagem. Cravei as unhas na terra cinzenta que cobria o muro até que minha mão estivesse coberta de sangue.
E a guerra chegava, cada vez mais perto.
Então, ouvi o som de música. Ela vinha do outro lado do muro. Lá estava um homem com um longo casaco marrom avermelhado. Ele era muito alto - gigantesco, mesmo - e um grande chapéu cobria sua cabeça.
Eu podia vê-lo, através do muro, mas não podia alcançá-lo.
Ele levantou a cabeça e olhou em meus olhos. E eu soube que as cordas do instrumento que ele tocava eram feitas dos cabelos de minha irmã.
Ele sorriu para mim, e seus dentes eram amarelos como gemas de ovos.
- O que você quer? - ele me perguntou, depois de um silêncio no qual senti crescer meu ódio por ele.
- Quero minha irmã! - respondi, aos gritos.
- Desculpe, eu não consegui ouvi-lo... - ele respondeu, sarcástico, e meu ódio aumentou.
Ao seu lado, agora, estavam os homens que haviam nos abandonado. Em pé, olhando para mim e, ainda assim, mortos. Não havia nenhuma vida em seus olhos.
E quando todos eles sorriram para mim, seus dentes eram amarelos como gemas de ovos.
Mas, no sonho, eu achava que minha irmã ainda estava viva, só que do outro lado do muro.
Eu tentava achar uma passagem. Cravei as unhas na terra cinzenta que cobria o muro até que minha mão estivesse coberta de sangue.
E a guerra chegava, cada vez mais perto.
Então, ouvi o som de música. Ela vinha do outro lado do muro. Lá estava um homem com um longo casaco marrom avermelhado. Ele era muito alto - gigantesco, mesmo - e um grande chapéu cobria sua cabeça.
Eu podia vê-lo, através do muro, mas não podia alcançá-lo.
Ele levantou a cabeça e olhou em meus olhos. E eu soube que as cordas do instrumento que ele tocava eram feitas dos cabelos de minha irmã.
Ele sorriu para mim, e seus dentes eram amarelos como gemas de ovos.
- O que você quer? - ele me perguntou, depois de um silêncio no qual senti crescer meu ódio por ele.
- Quero minha irmã! - respondi, aos gritos.
- Desculpe, eu não consegui ouvi-lo... - ele respondeu, sarcástico, e meu ódio aumentou.
Ao seu lado, agora, estavam os homens que haviam nos abandonado. Em pé, olhando para mim e, ainda assim, mortos. Não havia nenhuma vida em seus olhos.
E quando todos eles sorriram para mim, seus dentes eram amarelos como gemas de ovos.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Crevatolf - Cap. 12
Gabel tomou a palavra:
- Conheço essa parte da história melhor que você. - disse à irmã.
Seguimos por cerca um mês, utilizando trilhas antigas que Prosfrus e Trestede conheciam bem. O clima ficava cada vez mais úmido, à medida que nos encaminhávamos para a parte central do planeta. O primeiro impacto que percebemos foi a moral de nosso grupo: quando saímos da cidade de metal, os soldados pareciam dispostos a ir para guerra, animados com a perspectiva de fazer parte da História. Mas, à medida que escalávamos o planeta, começaram a surgir reclamações. O desconforto das acomodações, o gosto da comida, as montarias.
Por fim, numa manhã, quando levantamos acampamento, percebemos que dois crocofantes estavam sem seus humanos. Eles haviam desertado durante a noite.
Prosfrus foi duro com a memória dos homens. Diminui-os e achincalhou-os. Para sua surpresa, os outros homens evitavam olhá-lo. Suas expressões eram frias e de desagrado. Os outros plurinogorfos perceberam e começou uma discussão séria, selvagem, que não custaria muito a passar para o ato físico...
Trestede, com sua habitual diplomacia, conseguiu, enfim, interromper a discussão e deu a palavra aos homens, para que dissessem o que os desagradava.
- Não sabemos se acreditamos nas profecias... - disse um jovem ruivo, que parecia ter tomado a liderança dos humanos. - Não sabemos quem é o verdadeiro rei de Paraíso. O passado é história. O verdadeiro rei é quem está sentado no trono.
Não pude ficar quieto:
- Não é só uma questão de direito. - eu argumentei - TayFor quer reinar sozinho, enquanto que nossa família sempre ouviu e respeitou a voz de todos.
- Ele não governa sozinho! - disse o ruivo - Apenas sem vocês, o que é completamente diferente. No mais, o que aconteceria se alguém quisesse se tornar rei? Vocês o ouviriam? Deixariam o trono, se essa fosse a vontade da maioria?
A discussão recomeçou e seguiu por horas. Seu término cindiu o grupo: os 27 soldados humanos que partiram conosco da cidade de metal abandonaram o grupo para se unir aos exércitos de TayFor, com nossa anuência. Os 23 plurinogorfos e os 5 mágicos continuaram conosco, assim como os crocofantes e os cornocorpóreos.
Naquela noite, sonhei pela primeira vez com o homem com chapéu de abas largas.
- Conheço essa parte da história melhor que você. - disse à irmã.
Seguimos por cerca um mês, utilizando trilhas antigas que Prosfrus e Trestede conheciam bem. O clima ficava cada vez mais úmido, à medida que nos encaminhávamos para a parte central do planeta. O primeiro impacto que percebemos foi a moral de nosso grupo: quando saímos da cidade de metal, os soldados pareciam dispostos a ir para guerra, animados com a perspectiva de fazer parte da História. Mas, à medida que escalávamos o planeta, começaram a surgir reclamações. O desconforto das acomodações, o gosto da comida, as montarias.
Por fim, numa manhã, quando levantamos acampamento, percebemos que dois crocofantes estavam sem seus humanos. Eles haviam desertado durante a noite.
Prosfrus foi duro com a memória dos homens. Diminui-os e achincalhou-os. Para sua surpresa, os outros homens evitavam olhá-lo. Suas expressões eram frias e de desagrado. Os outros plurinogorfos perceberam e começou uma discussão séria, selvagem, que não custaria muito a passar para o ato físico...
Trestede, com sua habitual diplomacia, conseguiu, enfim, interromper a discussão e deu a palavra aos homens, para que dissessem o que os desagradava.
- Não sabemos se acreditamos nas profecias... - disse um jovem ruivo, que parecia ter tomado a liderança dos humanos. - Não sabemos quem é o verdadeiro rei de Paraíso. O passado é história. O verdadeiro rei é quem está sentado no trono.
Não pude ficar quieto:
- Não é só uma questão de direito. - eu argumentei - TayFor quer reinar sozinho, enquanto que nossa família sempre ouviu e respeitou a voz de todos.
- Ele não governa sozinho! - disse o ruivo - Apenas sem vocês, o que é completamente diferente. No mais, o que aconteceria se alguém quisesse se tornar rei? Vocês o ouviriam? Deixariam o trono, se essa fosse a vontade da maioria?
A discussão recomeçou e seguiu por horas. Seu término cindiu o grupo: os 27 soldados humanos que partiram conosco da cidade de metal abandonaram o grupo para se unir aos exércitos de TayFor, com nossa anuência. Os 23 plurinogorfos e os 5 mágicos continuaram conosco, assim como os crocofantes e os cornocorpóreos.
Naquela noite, sonhei pela primeira vez com o homem com chapéu de abas largas.
domingo, 14 de setembro de 2008
Crevatolf - Cap. 11
Uma semana levaram os preparativos para a viagem. Foi uma semana tensa para todos. Dois crocofantes foram selecionados, dentre os mais robustos, para nos auxiliar com as provisões. TayFor havia nos dado uma bandeira para que mostrássemos a qualquer de suas patrulhas que nos interpelasse, dentro ou fora dos muros.
- Mas não posso garantir que ninguém dentro dos muros respeite a minha palavra... - disse o primeiro vizir.
Assim, antes do amanhecer do oitavo dia, o grande portão de metal se levantou e saímos em comitiva. Trestede e Prosfrustrede nos acompanharam, assim como Fedoes. Além dos três, vieram cerca de 50 soldados, entre humanos - montados em crocofantes - e plurinogorfos - que cavalgavam cornocorpóreos. Carregavamos bom estoque de desejo, luz e tempo, que poderiam ser usados por mim, por Fedoes ou por alguns dos 5 outros mágicos que vieram conosco.
Apesar de querermos acreditar na palavra de TayFor, ficávamos em vigília, preparados para nos defender. Tínhamos um observador constante, que deveria voltar para a cidade de metal imediatamente, se fóssemos atacados: era Tula, a uruguia que havia conduzido Viramundo em sua vitória no portão de Borboreal.
Naquele instante, Hopo olhou para o céu. Lá estava ela, sobrevoando suas cabeças, tão alto que parecia uma minúscula cruz negra cortando o branco espaço do Sul de Paraíso. Eles já se conheciam e o metagorfo devia a vida à uruguia. Sorriu ao pensar que havia sido salvou por uma verdadeira heroína, e não por uma ave covarde e estúpida qualquer.
O frio ainda castigava o quarteto, na neve lá embaixo. Hopo não tinha idéia de que, ao saírem da cidade de metal, eles eram tantos.
Quando se conheceram, eram apenas Bea, Gabel e Tula. Ele entendia que a Zona Murada podia dizimar exércitos inteiros, mas não queria acreditar que todos aqueles heróis que tinham enfrentado Los e feito parte da história haviam...
Não teve coragem de completar o pensamento, muito menos de expressá-lo. Melhor era ficar quieto. E deixar Bea continuar a história.
Avançamos pela floresta sempre viva, observando as barracas do exército de TayFor se aproximarem. Fomos vistos pelos vigias nas torres e o ar se encheu com os sons altos, graves e fanhos dos didgeridoos.
Quando, enfim, saímos da floresta, todo o exército inimigo estava perfilado, deixando caminho para que passássemos. Trestede segurava o estandarte com a bandeira de paz bem alto, e notei que sua mão tremia com o estresse. O corredor nos levou até Pito, que estava em pé, próximo à barraca principal. Ele nos saldou e retribuímos. Percebemos que ele estava escolhendo suas palavras:
- O... [pigarro]... O rei... - e nos olhou de soslaio, mas diante de nosso silêncio, continuou. - O rei deixou seu... - nova pausa, novo olhar desconfiado - ...seu castelo à disposição da comitiva... Caso vocês queiram passar por Éden a caminho do Sul.
Éden, a cidade onde nascemos. E o castelo que o metagorfo se referia era o castelo de meus pais. Mas mantivemos nosso silêncio.
- Já sabem que caminho farão?
- Prefirimos seguir por outras vias. - disse, com uma voz de trovão, Prosfrus. - E precisamos ir, pois temos um planeta a atravessar.
Foi quando me dei conta do fato: estávamos no extremo norte do planeta, próximos a Borboreal. Crevatolf ficava quase no pólo sul. Seria uma viagem longa.
- Mas não posso garantir que ninguém dentro dos muros respeite a minha palavra... - disse o primeiro vizir.
Assim, antes do amanhecer do oitavo dia, o grande portão de metal se levantou e saímos em comitiva. Trestede e Prosfrustrede nos acompanharam, assim como Fedoes. Além dos três, vieram cerca de 50 soldados, entre humanos - montados em crocofantes - e plurinogorfos - que cavalgavam cornocorpóreos. Carregavamos bom estoque de desejo, luz e tempo, que poderiam ser usados por mim, por Fedoes ou por alguns dos 5 outros mágicos que vieram conosco.
Apesar de querermos acreditar na palavra de TayFor, ficávamos em vigília, preparados para nos defender. Tínhamos um observador constante, que deveria voltar para a cidade de metal imediatamente, se fóssemos atacados: era Tula, a uruguia que havia conduzido Viramundo em sua vitória no portão de Borboreal.
Naquele instante, Hopo olhou para o céu. Lá estava ela, sobrevoando suas cabeças, tão alto que parecia uma minúscula cruz negra cortando o branco espaço do Sul de Paraíso. Eles já se conheciam e o metagorfo devia a vida à uruguia. Sorriu ao pensar que havia sido salvou por uma verdadeira heroína, e não por uma ave covarde e estúpida qualquer.
O frio ainda castigava o quarteto, na neve lá embaixo. Hopo não tinha idéia de que, ao saírem da cidade de metal, eles eram tantos.
Quando se conheceram, eram apenas Bea, Gabel e Tula. Ele entendia que a Zona Murada podia dizimar exércitos inteiros, mas não queria acreditar que todos aqueles heróis que tinham enfrentado Los e feito parte da história haviam...
Não teve coragem de completar o pensamento, muito menos de expressá-lo. Melhor era ficar quieto. E deixar Bea continuar a história.
Avançamos pela floresta sempre viva, observando as barracas do exército de TayFor se aproximarem. Fomos vistos pelos vigias nas torres e o ar se encheu com os sons altos, graves e fanhos dos didgeridoos.
Quando, enfim, saímos da floresta, todo o exército inimigo estava perfilado, deixando caminho para que passássemos. Trestede segurava o estandarte com a bandeira de paz bem alto, e notei que sua mão tremia com o estresse. O corredor nos levou até Pito, que estava em pé, próximo à barraca principal. Ele nos saldou e retribuímos. Percebemos que ele estava escolhendo suas palavras:
- O... [pigarro]... O rei... - e nos olhou de soslaio, mas diante de nosso silêncio, continuou. - O rei deixou seu... - nova pausa, novo olhar desconfiado - ...seu castelo à disposição da comitiva... Caso vocês queiram passar por Éden a caminho do Sul.
Éden, a cidade onde nascemos. E o castelo que o metagorfo se referia era o castelo de meus pais. Mas mantivemos nosso silêncio.
- Já sabem que caminho farão?
- Prefirimos seguir por outras vias. - disse, com uma voz de trovão, Prosfrus. - E precisamos ir, pois temos um planeta a atravessar.
Foi quando me dei conta do fato: estávamos no extremo norte do planeta, próximos a Borboreal. Crevatolf ficava quase no pólo sul. Seria uma viagem longa.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Crevatolf - Cap. 10
O silêncio imperou duro por alguns momentos. Claro: a Morte até então era um conceito metafísico. Tínhamos nossas diferentes religiões e, de certa forma, a maioria de nós acreditávamos que 'a entrada da casa da morte' era uma metáfora. Eu mesma nunca havia pensado que ela teria uma casa, no sentido concreto da palavra.
Ninguém sabia como reagir. Grande parte de nossos aliados pensou que TayFor havia enlouquecido. Outra parte da população da cidade temeu que fosse uma armadilha. Uma história para minar nossas convicções.
Para mim e para Gabel, não mudava os fatos: queríamos e precisávamos ir ao portão. Mas o pensamento de enfrentar os mortos não era agradável, principalmente para Gabel, que havia morado na Terra, onde as lendas sobre mortos-vivos eram comuns.
Ou era uma farsa muito bem feita, ou TayFor e Amereida estavam realmente assustados, pois, quando exigimos que ela ficasse como refém, ela aceitou imediatamente.
O primeiro vizir relutou, mas acabou concordando. Ele confiava em nós mais do que nós nele. Os termos eram simples: ela seria solta quando estivéssemos de novo dentro dos portões. Ela seria bem tratada e nós teríamos salvo conduto até dentro dos muros.
Mas ninguém do lado de TayFor nos ajudaria. Nem que ele ordenasse. Ninguém de seu exército aceitaria voltar para o sul até que o portão estivesse fechado.
Ninguém sabia como reagir. Grande parte de nossos aliados pensou que TayFor havia enlouquecido. Outra parte da população da cidade temeu que fosse uma armadilha. Uma história para minar nossas convicções.
Para mim e para Gabel, não mudava os fatos: queríamos e precisávamos ir ao portão. Mas o pensamento de enfrentar os mortos não era agradável, principalmente para Gabel, que havia morado na Terra, onde as lendas sobre mortos-vivos eram comuns.
Ou era uma farsa muito bem feita, ou TayFor e Amereida estavam realmente assustados, pois, quando exigimos que ela ficasse como refém, ela aceitou imediatamente.
O primeiro vizir relutou, mas acabou concordando. Ele confiava em nós mais do que nós nele. Os termos eram simples: ela seria solta quando estivéssemos de novo dentro dos portões. Ela seria bem tratada e nós teríamos salvo conduto até dentro dos muros.
Mas ninguém do lado de TayFor nos ajudaria. Nem que ele ordenasse. Ninguém de seu exército aceitaria voltar para o sul até que o portão estivesse fechado.
domingo, 7 de setembro de 2008
Crevatolf - Cap. 9
Os portões da cidade foram abertos e a pequena comitiva entrou. A maioria dos nossos aliados ficou boquiaberta ao ver o primeiro vizir, ali. Bumarunos foi o primeiro a dirigir a palavra a ele:
- Muito corajoso de sua parte vir aqui, posto que ainda não aceitamos sua trégua.
TayFor encarou o crocofante sem medo, mas respeitosamente.
- Há coisas mais importantes que nossa guerra, comandante. - ele disse - E a situação no sul é uma dessas, certamente.
Os três foram guiados até o túmulo de Viramundo, que o primeiro vizir observou com curiosidade. Não conhecera o herói, mas admirava seus feitos. Observou seu rosto infantil, através do vidro que cobria o túmulo, sob o pedestal. Disse uma palavra que quase ninguém ouviu.
Mas o crocofante, que estava ao seu lado, escutou-a e surpreendeu-se. Mais tarde, Bumarunos nos contou: a palavra do primeiro vizir fora "obrigado".
TayFor parecia realmente cansado. Perguntei-me se era da guerra ou do poder. As histórias que ouvíamos a seu respeito, de antes do golpe, mostravam-no como um homem justo e humilde. E, longe do palácio de Paraíso, era assim que ele se portava.
E, no entanto, isso não mudava o fato dele ter usurpado o trono e tentado matar minha mãe.
Sentamo-nos, todos. No círculo central, TayFor e a esposa estavam frente a frente com Bumarunos, Fedoes, Prosfrustrede e Trestede. Logo atrás do casal, sentou-se Pito. Meu irmão e eu sentamos um pouco mais distantes, mantendo nossa identidade incógnita: éramos apenas mais dois humanos misturados à multidão.
As negociações começaram. Trestede expôs nossas condições e TayFor expôs as dele. Nessa hora, vi o brilho da cobiça voltar a seu olhar. Ele se recusou a falar sobre devolver o trono ou sobre o fim da guerra. Mas afirmou que não havia mais exércitos seus no sul que pudessem ser usados contra a cidade de metal.
- Não há mais nada lá. Muramos toda a região e temos alguns postos de vigia. Ainda há luta entre alguns poucos batalhões que permaneceram dentro dos muros... Mas nenhum deles vai ser fiel a mim, depois de levantarmos as paredes e prendê-los lá dentro... E duvido que algum deles ainda mantenha sua sanidade mental...
- Afinal, o que está acontecendo lá? - perguntou Prosfrus.
- Tem a ver com o portão... - disse Amereida, numa voz doce que contrastava com a firmeza da voz do marido. - O portão da casa da morte...
- Não sabemos ao certo... - disse o primeiro vizir. - Mas a nossa conclusão foi que...
Ele refletiu, algum tempo, ponderando sobre o que ia dizer.
- Os mortos escaparam do reino da morte pelo portão aberto...
- Muito corajoso de sua parte vir aqui, posto que ainda não aceitamos sua trégua.
TayFor encarou o crocofante sem medo, mas respeitosamente.
- Há coisas mais importantes que nossa guerra, comandante. - ele disse - E a situação no sul é uma dessas, certamente.
Os três foram guiados até o túmulo de Viramundo, que o primeiro vizir observou com curiosidade. Não conhecera o herói, mas admirava seus feitos. Observou seu rosto infantil, através do vidro que cobria o túmulo, sob o pedestal. Disse uma palavra que quase ninguém ouviu.
Mas o crocofante, que estava ao seu lado, escutou-a e surpreendeu-se. Mais tarde, Bumarunos nos contou: a palavra do primeiro vizir fora "obrigado".
TayFor parecia realmente cansado. Perguntei-me se era da guerra ou do poder. As histórias que ouvíamos a seu respeito, de antes do golpe, mostravam-no como um homem justo e humilde. E, longe do palácio de Paraíso, era assim que ele se portava.
E, no entanto, isso não mudava o fato dele ter usurpado o trono e tentado matar minha mãe.
Sentamo-nos, todos. No círculo central, TayFor e a esposa estavam frente a frente com Bumarunos, Fedoes, Prosfrustrede e Trestede. Logo atrás do casal, sentou-se Pito. Meu irmão e eu sentamos um pouco mais distantes, mantendo nossa identidade incógnita: éramos apenas mais dois humanos misturados à multidão.
As negociações começaram. Trestede expôs nossas condições e TayFor expôs as dele. Nessa hora, vi o brilho da cobiça voltar a seu olhar. Ele se recusou a falar sobre devolver o trono ou sobre o fim da guerra. Mas afirmou que não havia mais exércitos seus no sul que pudessem ser usados contra a cidade de metal.
- Não há mais nada lá. Muramos toda a região e temos alguns postos de vigia. Ainda há luta entre alguns poucos batalhões que permaneceram dentro dos muros... Mas nenhum deles vai ser fiel a mim, depois de levantarmos as paredes e prendê-los lá dentro... E duvido que algum deles ainda mantenha sua sanidade mental...
- Afinal, o que está acontecendo lá? - perguntou Prosfrus.
- Tem a ver com o portão... - disse Amereida, numa voz doce que contrastava com a firmeza da voz do marido. - O portão da casa da morte...
- Não sabemos ao certo... - disse o primeiro vizir. - Mas a nossa conclusão foi que...
Ele refletiu, algum tempo, ponderando sobre o que ia dizer.
- Os mortos escaparam do reino da morte pelo portão aberto...
sábado, 6 de setembro de 2008
Crevatolf - Cap. 8
Reunidos na praça em frente ao túmulo de Viramundo, os moradores da cidade de metal cochichavam entre si, enquanto uma imensa expectativa enchia o ar. Prosfrus e Trestede ficaram conosco, tentando fazer o papel de 'advogado do diabo' frente à nossa certeza do que deveria ser feito.
- A questão não é simplesmente ir até lá. Precisamos pensar no depois. - afirmou Trestede. - Se o primeiro vizir puder deslocar todo seu exército para cá, será que temos chance?
- Eu entendo o que você diz... - meu irmão ponderou. - E, no entanto, até quando ficaremos nesse impasse? A ida até Crevatolf não é simplesmente para fechar o portão. Algo mais deve acontecer. Vamos encontrar nosso pai...
- As profecias não são exatas... - disse Prosfrus. - E se o primeiro vizir estiver manipulando as coisas em direção a outro fim?
- A alternativa - eu ponderei - é ficar aqui, sentado em cima do traseiro, esperando algo que não aconteceu nos últimos três anos e não vai acontecer, pois as condições não vão mudar. Mesmo que saiamos às escondidas, assim que o portão for fechado o primeiro vizir vai saber.
- Então não feche o portão... - sugeriu Prosfrus. - Retorne com seu pai mas deixe a situação como está. A profecia não diz que é necessário fechar Crevatolf. Diz apenas que 'os portões vão estar de novo sob controle'.
- E, no meio tempo, vamos exigir do primeiro vizir algo que ele ame, como garantia de que vocês não serão feitos prisioneiros ou coisa que o valha, até que retornem...
Assim, naquela noite, transmitimos nossas idéias ao povo reunido na praça,que foi aceita por unanimidade.

Três dias depois, a floresta abriu caminho para três pessoas: Pito, o metagorfo, vinha acompanhado do primeiro vizir e de sua esposa, Amereida. Os cabelos da humana eram tão longos que se arrastariam no chão, se não fossem protegidos pelo longo véu que trazia preso à cabeça.
Ela era cega, mas o primeiro vizir a conduzia como se fosse uma dança de salão: a mão direita dela por sobre a esquerda dele, os braços levemente estendidos à frente, passos sincronizados.
O primeiro vizir - TayFor era seu nome - cuidava para que nenhuma pedra atrapalhasse o caminho da amada, manipulando um grande cajado com a mão direita.
Era uma imagem bonita, os dois caminhando juntos. Transmitiu-me amor, se posso dizer. Não pude deixar de ter menos ódio de TayFor. E, ao olhar para Prosfrus, já sabia quem ele exigiria que ficasse conosco, como refém.
- A questão não é simplesmente ir até lá. Precisamos pensar no depois. - afirmou Trestede. - Se o primeiro vizir puder deslocar todo seu exército para cá, será que temos chance?
- Eu entendo o que você diz... - meu irmão ponderou. - E, no entanto, até quando ficaremos nesse impasse? A ida até Crevatolf não é simplesmente para fechar o portão. Algo mais deve acontecer. Vamos encontrar nosso pai...
- As profecias não são exatas... - disse Prosfrus. - E se o primeiro vizir estiver manipulando as coisas em direção a outro fim?
- A alternativa - eu ponderei - é ficar aqui, sentado em cima do traseiro, esperando algo que não aconteceu nos últimos três anos e não vai acontecer, pois as condições não vão mudar. Mesmo que saiamos às escondidas, assim que o portão for fechado o primeiro vizir vai saber.
- Então não feche o portão... - sugeriu Prosfrus. - Retorne com seu pai mas deixe a situação como está. A profecia não diz que é necessário fechar Crevatolf. Diz apenas que 'os portões vão estar de novo sob controle'.
- E, no meio tempo, vamos exigir do primeiro vizir algo que ele ame, como garantia de que vocês não serão feitos prisioneiros ou coisa que o valha, até que retornem...
Assim, naquela noite, transmitimos nossas idéias ao povo reunido na praça,que foi aceita por unanimidade.

Três dias depois, a floresta abriu caminho para três pessoas: Pito, o metagorfo, vinha acompanhado do primeiro vizir e de sua esposa, Amereida. Os cabelos da humana eram tão longos que se arrastariam no chão, se não fossem protegidos pelo longo véu que trazia preso à cabeça.
Ela era cega, mas o primeiro vizir a conduzia como se fosse uma dança de salão: a mão direita dela por sobre a esquerda dele, os braços levemente estendidos à frente, passos sincronizados.
O primeiro vizir - TayFor era seu nome - cuidava para que nenhuma pedra atrapalhasse o caminho da amada, manipulando um grande cajado com a mão direita.
Era uma imagem bonita, os dois caminhando juntos. Transmitiu-me amor, se posso dizer. Não pude deixar de ter menos ódio de TayFor. E, ao olhar para Prosfrus, já sabia quem ele exigiria que ficasse conosco, como refém.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Crevatolf - Cap. 7
As coisas começaram a mudar quando soltamos o bugrerão. Percebemos que ele não tinha condições de lutar e que era seriamente perturbado. Gritava ao ficar no escuro e se recusava a tocar qualquer coisa suja. A maior parte do tempo, chorava, suplicando por paz. Mas temia a morte acima de qualquer coisa e ao ouvir a palavra, choramingava "eu não quero voltar, eu não quero voltar!". Nos poucos momentos de lucidez que teve enquanto era nosso prisioneiro, pediu para ir para casa, morar com a filha.
Nosso coração falou mais alto e acabamos deixando-o partir.
Um mês depois, um pequeno metagorfo foi trazido à cidade, com o selo dos mensageiros estampado no corpo. Ele queria saber se era verdade que os príncipes haviam voltado para Paraíso e, caso fosse, o primeiro vizir desejava uma trégua para falar com eles.
A cidade se reuniu. Bumarunos, um crocofante pesado e velho, que comandara diversas esquadras nas batalhas em Borboreal, foi o primeiro a falar. Seu couro já havia perdido o verde e se tornado cinza prata e, da imensa boca, os dentes irregulares mostravam-se gastos.
- Minha sugestão é que façamos ensopado de metagorfo... - disse, zombeteiro, fazendo os crocofantes gargalharem e o pequeno metagorfo, cujo nome era Pito, estremecer. Fedoes, um humano que parecia ser o porta-voz dos mágicos, acalmou Pito, mas indagou os motivos do primeiro vizir.
- O rei quer... - começou a responder Pito, e não conseguiu mais falar. Agora, o ódio era real e qualquer bom humor se transformou em vaias, gritos e ameaças. O primeiro vizir não era rei de Paraíso. Bumarunos exigiu que, a partir daquele momento, Pito se referisse a ele como 'o usurpador'. E Pito não teve escolha, senão acatar.
- O 'usurpador' - disse, temendo sua própria voz - quer negociar uma trégua para que os príncipes possam fechar Crevatolf...
E isso era tudo o que o mensageiro sabia.
- Volte em três dias - disse Fedoes (e era engraçado o conceito de dia, posto que naquela parte do fim do mundo, e sob influência de Borboreal, não tínhamos realmente uma noite...; mas sabíamos que Fedoes se referia a três períodos de vigília-descanso...) - e lhe daremos uma resposta.
Enquanto o metagorfo desaparecia na floresta, sempre parecendo apavorado, eu olhei para meu irmão e sabíamos o que defenderíamos: a trégua era necessária para que a profecia se concretizasse e o primeiro vizir também sabia disso. Era um jogo complicado, onde metade das cartas estava na mesa. E a outra metade escondida nas mangas...
Nosso coração falou mais alto e acabamos deixando-o partir.
Um mês depois, um pequeno metagorfo foi trazido à cidade, com o selo dos mensageiros estampado no corpo. Ele queria saber se era verdade que os príncipes haviam voltado para Paraíso e, caso fosse, o primeiro vizir desejava uma trégua para falar com eles.
A cidade se reuniu. Bumarunos, um crocofante pesado e velho, que comandara diversas esquadras nas batalhas em Borboreal, foi o primeiro a falar. Seu couro já havia perdido o verde e se tornado cinza prata e, da imensa boca, os dentes irregulares mostravam-se gastos.
- Minha sugestão é que façamos ensopado de metagorfo... - disse, zombeteiro, fazendo os crocofantes gargalharem e o pequeno metagorfo, cujo nome era Pito, estremecer. Fedoes, um humano que parecia ser o porta-voz dos mágicos, acalmou Pito, mas indagou os motivos do primeiro vizir.
- O rei quer... - começou a responder Pito, e não conseguiu mais falar. Agora, o ódio era real e qualquer bom humor se transformou em vaias, gritos e ameaças. O primeiro vizir não era rei de Paraíso. Bumarunos exigiu que, a partir daquele momento, Pito se referisse a ele como 'o usurpador'. E Pito não teve escolha, senão acatar.
- O 'usurpador' - disse, temendo sua própria voz - quer negociar uma trégua para que os príncipes possam fechar Crevatolf...
E isso era tudo o que o mensageiro sabia.
- Volte em três dias - disse Fedoes (e era engraçado o conceito de dia, posto que naquela parte do fim do mundo, e sob influência de Borboreal, não tínhamos realmente uma noite...; mas sabíamos que Fedoes se referia a três períodos de vigília-descanso...) - e lhe daremos uma resposta.
Enquanto o metagorfo desaparecia na floresta, sempre parecendo apavorado, eu olhei para meu irmão e sabíamos o que defenderíamos: a trégua era necessária para que a profecia se concretizasse e o primeiro vizir também sabia disso. Era um jogo complicado, onde metade das cartas estava na mesa. E a outra metade escondida nas mangas...
Crevatolf - Cap. 6
A primeira pessoa que conhecemos, ao chegar em Paraíso, foi Prosfrustrede. Ele e Trestede nos mostraram toda a cidade, que é banhada pelas luzes de Borboreal. Com suas diversas partes de metal polido, a cidade reflete as multicores do portão fechado, transformando todos os lugares em vitrais coloridos.
Bem no centro da cidade, ao lado de um regimento de plurinogorfos e guardada por oito crocofantes, está o túmulo de Viramundo, no qual se escreveu "Esquecido pelas profecias, nunca pelos amigos".
Abaixo dele, sabíamos que nossa mãe estava cristalizada no tempo, esperando por uma cura improvável.
A cidade era bastante militar: não havia comércio e os diferentes seres que ali habitavam eram remanescentes da batalha final contra Los. A floresta sempre-viva cercava toda a cidade, estendendo-se por um bom território (como conseguíamos ver de cima da muralha da cidade). Mas, com ajuda de olhos de jaguarade, era possível ver um exército ainda mais vasto acampado, impedindo a floresta de avançar.
Magos lançavam imensas bolas de fogo nas árvores e apodreciam o solo para que nada nascesse ali. Os cornocorpóreos se embrenhavam na floresta, tentando fugir das esquadras de bugrerões e corcoromeis que os caçavam por entre os troncos. Um equilíbrio havia se imposto: nem o exército do primeiro vizir conseguia avançar, nem as árvores.
Assim, relativamente a salvo, recomeçamos nosso treinamento, e foi dessa forma que passamos três anos. Ao mesmo tempo em que aprimorávamos nossas habilidades, buscávamos uma forma de sair cerco e seguir para o único destino que parecia certo: Crevatolf, o portão onde o desejo vira delírio...
Era raro termos notícias do que acontecia no Sul, sitiados como estávamos. Tudo o que sabíamos veio através de um bugrerão louco que foi capturado na floresta pelos cornocorpóreos.
O bugrerão viera a pouco tempo do sul. Sua bocarra vivia aberta, deixando exposta as diversas fileiras de dentes. O couro que revestia seu corpo, em geral brilhante nos seres da espécie, era opaco e úmido, como se suasse a frio todo o tempo.
Não conversa direito e seu olhar buscava repetidamente o chão, atrás de movimentos ocasionais de folhas levadas pelo vento. Ainda assim, soubemos que o primeiro vizir tinha muitos problemas no Sul. Talvez por isso não atacasse a cidade com todas as forças. O bugrerão se referia à loucura podre que invadira a região.
E tinha pânico ao se lembrar da poeira desejante...
Bem no centro da cidade, ao lado de um regimento de plurinogorfos e guardada por oito crocofantes, está o túmulo de Viramundo, no qual se escreveu "Esquecido pelas profecias, nunca pelos amigos".
Abaixo dele, sabíamos que nossa mãe estava cristalizada no tempo, esperando por uma cura improvável.
A cidade era bastante militar: não havia comércio e os diferentes seres que ali habitavam eram remanescentes da batalha final contra Los. A floresta sempre-viva cercava toda a cidade, estendendo-se por um bom território (como conseguíamos ver de cima da muralha da cidade). Mas, com ajuda de olhos de jaguarade, era possível ver um exército ainda mais vasto acampado, impedindo a floresta de avançar.
Magos lançavam imensas bolas de fogo nas árvores e apodreciam o solo para que nada nascesse ali. Os cornocorpóreos se embrenhavam na floresta, tentando fugir das esquadras de bugrerões e corcoromeis que os caçavam por entre os troncos. Um equilíbrio havia se imposto: nem o exército do primeiro vizir conseguia avançar, nem as árvores.
Assim, relativamente a salvo, recomeçamos nosso treinamento, e foi dessa forma que passamos três anos. Ao mesmo tempo em que aprimorávamos nossas habilidades, buscávamos uma forma de sair cerco e seguir para o único destino que parecia certo: Crevatolf, o portão onde o desejo vira delírio...
Era raro termos notícias do que acontecia no Sul, sitiados como estávamos. Tudo o que sabíamos veio através de um bugrerão louco que foi capturado na floresta pelos cornocorpóreos.
O bugrerão viera a pouco tempo do sul. Sua bocarra vivia aberta, deixando exposta as diversas fileiras de dentes. O couro que revestia seu corpo, em geral brilhante nos seres da espécie, era opaco e úmido, como se suasse a frio todo o tempo.
Não conversa direito e seu olhar buscava repetidamente o chão, atrás de movimentos ocasionais de folhas levadas pelo vento. Ainda assim, soubemos que o primeiro vizir tinha muitos problemas no Sul. Talvez por isso não atacasse a cidade com todas as forças. O bugrerão se referia à loucura podre que invadira a região.
E tinha pânico ao se lembrar da poeira desejante...
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Desculpem a nossa falha
Estou com labirintite, por isso não estou conseguindo atualizar a história. Volto em breve, assim que as coisas pararem de rodar.
Abraços,
Augusto Galery
Abraços,
Augusto Galery
sábado, 30 de agosto de 2008
Crevatolf - Cap. 5
O portão exercia uma força opressora sobre os quatro companheiros. Hopo e o crocofante nem olhavam em sua direção. Gabel só o olhava de soslaio e mesmo Bea se sentia nervosa ao fitá-lo diretamente. As grades, de um metal alvo e brilhante, lançavam fachos de luz que contrastavam com o branco da neve, ao redor.
Decidiram descansar, antes de seguir em frente.
- Então vocês não foram criados em Paraíso? - perguntou Hopo, humildemente, buscando algum assunto que desviasse a atenção de Crevatolf.
- Não... - respondeu Bea - Mas eu me lembrava do interior do castelo e, vagamente, das cócegas que meu pai me fazia.
- Acha que vão reencontrá-lo? - perguntou o metagorfo.
- É o que diz a profecia... - sussurou Gabel, com o frio e o medo roubando-lhe a voz.
- Profecias... - falou o crocofante, em seu estranho sotaque animalesco. Mas o tom de descrédito ficou claro, lembrando aos meninos de alguém que conheceram antes de encontrar o semi-paquiderme: Marxus, o pequeno mago.
- Ainda não tivemos ânimo para uma boa conversa. - disse Hopo - Quem sabe se soubéssemos da história desde o começo, pudéssemos ajudar mais? Se é que há uma história a ser contada...
- Ah, sim. Há uma história! - disse Gabel - e contá-la poderia nos fazer bem. Por que não a conta, Bea?
A princesa sorriu. Um sorriso doce, fraco, cansado e, ao mesmo tempo, ansioso, surgiu em sua face magra. Contar a história poderia trazer frescor aos detalhes importantes e a tudo que aprenderam no caminho.
Mas não seria simples.
A história era dolorida.
Ainda assim, buscando fôlego, a menina a contou.
Decidiram descansar, antes de seguir em frente.
- Então vocês não foram criados em Paraíso? - perguntou Hopo, humildemente, buscando algum assunto que desviasse a atenção de Crevatolf.
- Não... - respondeu Bea - Mas eu me lembrava do interior do castelo e, vagamente, das cócegas que meu pai me fazia.
- Acha que vão reencontrá-lo? - perguntou o metagorfo.
- É o que diz a profecia... - sussurou Gabel, com o frio e o medo roubando-lhe a voz.
- Profecias... - falou o crocofante, em seu estranho sotaque animalesco. Mas o tom de descrédito ficou claro, lembrando aos meninos de alguém que conheceram antes de encontrar o semi-paquiderme: Marxus, o pequeno mago.
- Ainda não tivemos ânimo para uma boa conversa. - disse Hopo - Quem sabe se soubéssemos da história desde o começo, pudéssemos ajudar mais? Se é que há uma história a ser contada...
- Ah, sim. Há uma história! - disse Gabel - e contá-la poderia nos fazer bem. Por que não a conta, Bea?
A princesa sorriu. Um sorriso doce, fraco, cansado e, ao mesmo tempo, ansioso, surgiu em sua face magra. Contar a história poderia trazer frescor aos detalhes importantes e a tudo que aprenderam no caminho.
Mas não seria simples.
A história era dolorida.
Ainda assim, buscando fôlego, a menina a contou.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Crevatolf - Cap. 4
Já dentro de casa, em torno da mesa do jantar, Trestede nos contou toda a história de Viramundo: de como ele, de enganado, passara a herói e fechara Borboreal. E do que aconteceu depois disso.
Quando percebemos que Los havia voltado para seu próprio mundo, devido ao fechamento de Borboreal, a maioria de nós correu para ver o que acontecera à Rainha. Eu estava próximo a ela, na linha dos mágicos, mas não percebi a chegada do rouxibel. Prosfrus me contou, mais tarde, que mal pode percebê-lo se aproximar, tão pequeno e veloz, cortando o ar com asas que batiam a uma cadência invisível.
Ele ferroou a rainha próximo ao pescoço e caiu, vazio. Todo seu sangue pestinolento foi injetado no corpo de Anácris.
Os magos e bruxos reunidos mal tiveram tempo de pensar em algum feitiço que pudesse salvá-la. Acabaram congelando-a em um cubo de tempo, que rapidamente cobrimos e enterramos. Ela ainda está no campo de batalha onde vencemos Los. Nosso medo era que o primeiro vizir a encontrasse para terminar o serviço nefasto que começara. Assim, em cima e ao redor de sua câmara soporífera, construímos uma cidade de ferro, cujos habitantes são seus guardiões.
Prosfrus fez um esforço tremendo para salvar Viramundo. Em vão. O garoto despencou dos céus e atingiu o chão mais rápido do que as reações que tivemos.
Seu corpo foi restaurado pelos mágicos e mumificado. Seu túmulo está exatamente acima da câmara de Anácris, na praça construída no centro da cidade guardiã, que recebeu o nome de Praça de Heróis.
A cidade, no entanto, encontra-se sitiada pelo primeiro vizir. Felizmente, ela é quase totalmente auto-sustentável e o enorme exército que lutava contra Los está do nosso lado. Mas as forças do primeiro vizir crescem a cada dia.
Grandes assembléias com a participação de todos foram realizadas, e concluímos que o primeiro passo era trazer de volta os príncipes de Paraíso, pois enfim a profecia poderia seguir seu rumo.
Faz pelo menos 4 anos que saímos da Terra e voltamos para Paraíso. Por três anos nos preparamos para partir para o Sul. Já não sei mais a quanto tempo estamos viajando.
Quando percebemos que Los havia voltado para seu próprio mundo, devido ao fechamento de Borboreal, a maioria de nós correu para ver o que acontecera à Rainha. Eu estava próximo a ela, na linha dos mágicos, mas não percebi a chegada do rouxibel. Prosfrus me contou, mais tarde, que mal pode percebê-lo se aproximar, tão pequeno e veloz, cortando o ar com asas que batiam a uma cadência invisível.
Ele ferroou a rainha próximo ao pescoço e caiu, vazio. Todo seu sangue pestinolento foi injetado no corpo de Anácris.
Os magos e bruxos reunidos mal tiveram tempo de pensar em algum feitiço que pudesse salvá-la. Acabaram congelando-a em um cubo de tempo, que rapidamente cobrimos e enterramos. Ela ainda está no campo de batalha onde vencemos Los. Nosso medo era que o primeiro vizir a encontrasse para terminar o serviço nefasto que começara. Assim, em cima e ao redor de sua câmara soporífera, construímos uma cidade de ferro, cujos habitantes são seus guardiões.
Prosfrus fez um esforço tremendo para salvar Viramundo. Em vão. O garoto despencou dos céus e atingiu o chão mais rápido do que as reações que tivemos.
Seu corpo foi restaurado pelos mágicos e mumificado. Seu túmulo está exatamente acima da câmara de Anácris, na praça construída no centro da cidade guardiã, que recebeu o nome de Praça de Heróis.
A cidade, no entanto, encontra-se sitiada pelo primeiro vizir. Felizmente, ela é quase totalmente auto-sustentável e o enorme exército que lutava contra Los está do nosso lado. Mas as forças do primeiro vizir crescem a cada dia.
Grandes assembléias com a participação de todos foram realizadas, e concluímos que o primeiro passo era trazer de volta os príncipes de Paraíso, pois enfim a profecia poderia seguir seu rumo.
Faz pelo menos 4 anos que saímos da Terra e voltamos para Paraíso. Por três anos nos preparamos para partir para o Sul. Já não sei mais a quanto tempo estamos viajando.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Crevatolf - Cap. 3
A chegada de Bea não deixou de ser um alívio. Vivendo nesse planeta racional e esquecido, às vezes eu acreditava ser louco. Se eu contasse para alguém que acreditava ser o príncipe de um planeta longínquo, cheio de seres estranhos e magias, certamente me convenceriam a tomar algum remédio.
Não me lembrava dela e a olhei com timidez, quando seus olhos se levantaram e se encontram com os meus. Mas ela abriu um sorriso imenso e correu para me abraçar. Seu corpo era quente e firme, diferente do corpo dos plurinogorfos. A sensação me deu vontade de chorar. Eu sentia muita falta de contato humano. Os plurinogorfos são tão diferentes de nós...
Por cima dos ombros de minha irmã, vi alguém que já conhecia, mas tinha visto poucas vezes nos últimos tempos. Seu nome era Trestede e ele era um dos guardiões que vieram comigo para a Terra.
- Olá, Gabel... - ele disse, com um sorriso fraco.
- Olá, 'Seu' Josias! - eu disse, sorrindo ao me referir ao nome que ele usara nos últimos anos, no planeta. - Anda sumido!
- Estive em Paraíso... - ele me surpreendeu com a resposta.
Bea me soltou e olhou meu rosto. Examinou-o inteiro, cuidadosamente.
- Nada... - disse, enfim. - Nada que me lembre o bebê que conheci tão rapidamente. Se eu te visse na rua, não saberia quem você é...
Sorri para ela.
- Estamos na mesma situação, então... Mas eu diria: lá vai alguém com o nariz igual ao meu!
Ela soltou uma gargalhada aberta e gostosa.
- De nosso pai! - E me abraçou novamente, com mais força, dessa vez.
Não me lembrava dela e a olhei com timidez, quando seus olhos se levantaram e se encontram com os meus. Mas ela abriu um sorriso imenso e correu para me abraçar. Seu corpo era quente e firme, diferente do corpo dos plurinogorfos. A sensação me deu vontade de chorar. Eu sentia muita falta de contato humano. Os plurinogorfos são tão diferentes de nós...
Por cima dos ombros de minha irmã, vi alguém que já conhecia, mas tinha visto poucas vezes nos últimos tempos. Seu nome era Trestede e ele era um dos guardiões que vieram comigo para a Terra.
- Olá, Gabel... - ele disse, com um sorriso fraco.
- Olá, 'Seu' Josias! - eu disse, sorrindo ao me referir ao nome que ele usara nos últimos anos, no planeta. - Anda sumido!
- Estive em Paraíso... - ele me surpreendeu com a resposta.
Bea me soltou e olhou meu rosto. Examinou-o inteiro, cuidadosamente.
- Nada... - disse, enfim. - Nada que me lembre o bebê que conheci tão rapidamente. Se eu te visse na rua, não saberia quem você é...
Sorri para ela.
- Estamos na mesma situação, então... Mas eu diria: lá vai alguém com o nariz igual ao meu!
Ela soltou uma gargalhada aberta e gostosa.
- De nosso pai! - E me abraçou novamente, com mais força, dessa vez.
Crevatolf - Cap. 2
O portão não era tão grande quanto Borboreal. No meio do branco, parecia oprimido. Os quatro viajantes pararam à distância e os meninos e o metagorfo desceram do lombo do crocofante. O animal abriu a bocarra cheia de dentes para receber mais uma refeição. Mastigou o macapré devagar, apesar da sensação de avidez causada pela fome. Sabia que as rações ficariam escassas naquelas planícies onde tantas vezes penetrara, mas que, pela primeira vez, atravessava. Não queria ver Crevatolf, mas devia o esforço aos meninos.
Agora seriam poucos metros e poderia voltar para casa.
Já o casal de humanos não estava certo se voltaria.
Lembraram-se de tudo o que haviam passado, desde seu reencontro. Gabel não se lembrava da irmã - tinham se separado quando ele era recém-nascido - e se surpreendeu ao vê-la em seu portão, a universos de distância, na Terra.
Tinha oito anos quando a viu...
Eu voltava para casa de meus treinos. Os plurinogorfos que me criaram fizeram questão que eu treinasse atletismo desde quase bebê. Diziam que eu voltaria para Paraíso e precisaria estar pronto para a batalha. Como nunca me interessei pela magia, preferi cuidar do corpo.
Pranestrede me ensinava as lutas de Paraíso, e minha preferida era o suorca, luta corporal com espécies de adagas de duas pontas nos sapatos e luvas - oito pontas no total.
Quando cheguei em casa, uma garota de 16 anos estava sentada na porta, conversando com Pranestrede, que se mostrava humilde e, ao mesmo tempo, entusiasmado. A garota tinha cabelos loiros, olhos negros e um nariz exatamente igual ao meu. Vestia um macacão de material estranho e com diversos bolsos frouxos, que me pareciam pesados de tão cheios.
Mas o que agarrou minha atenção foi o pingente em seu pescoço. Era um pequeno cubo negro pendurado por um dos vértices. Símbolo dos mágicos.
Eu o reconheci imediatamente: era o colar que via todas as noites antes de dormir, ao olhar para o retrato pintado de minha mãe pendurado na parede de meu quarto.
Percebi, assim, que era hora de voltar para casa.
Agora seriam poucos metros e poderia voltar para casa.
Já o casal de humanos não estava certo se voltaria.
Lembraram-se de tudo o que haviam passado, desde seu reencontro. Gabel não se lembrava da irmã - tinham se separado quando ele era recém-nascido - e se surpreendeu ao vê-la em seu portão, a universos de distância, na Terra.
Tinha oito anos quando a viu...
Eu voltava para casa de meus treinos. Os plurinogorfos que me criaram fizeram questão que eu treinasse atletismo desde quase bebê. Diziam que eu voltaria para Paraíso e precisaria estar pronto para a batalha. Como nunca me interessei pela magia, preferi cuidar do corpo.
Pranestrede me ensinava as lutas de Paraíso, e minha preferida era o suorca, luta corporal com espécies de adagas de duas pontas nos sapatos e luvas - oito pontas no total.
Quando cheguei em casa, uma garota de 16 anos estava sentada na porta, conversando com Pranestrede, que se mostrava humilde e, ao mesmo tempo, entusiasmado. A garota tinha cabelos loiros, olhos negros e um nariz exatamente igual ao meu. Vestia um macacão de material estranho e com diversos bolsos frouxos, que me pareciam pesados de tão cheios.
Mas o que agarrou minha atenção foi o pingente em seu pescoço. Era um pequeno cubo negro pendurado por um dos vértices. Símbolo dos mágicos.
Eu o reconheci imediatamente: era o colar que via todas as noites antes de dormir, ao olhar para o retrato pintado de minha mãe pendurado na parede de meu quarto.
Percebi, assim, que era hora de voltar para casa.
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