sexta-feira, 4 de julho de 2008

Borboreal - Cap. 17

- Terceiro encontro?

- Sim... - disse 'Seu' Josias olhando para os lados, procurando sinais do corcoromel.

- Porque só agora você me contou tudo isso?

O plurinogorfo olhou-me sem entender.

- Talvez fosse menos perigoso... - eu sugeri - ...que eu não soubesse que era o príncipe, não acha?

Ele continuou me olhando, mas agora parecia chateado.

- Talvez o melhor mesmo seria fazer outra pessoa pensar que era o príncipe, assim poderia despistar melhor no caso de um corcoromel aparecer...

Ele abriu a boca e achei que ele fosse negar tudo, mas ele desistiu no meio do caminho.

Vi o mundo através de uma lente amplificadora, mas borrada, formada por lágrimas.

- E eu sou a distração...

'Seu' Josias olhava o chão, agora. Também chorava. Balbuciou desculpas desconexas. Um estranho sentimento começou a brotar, dentro de mim. Uma alegria triste de ter sido envolvido naquele mundo, mesmo dessa maneira enganosa. Eu me sentia outra pessoa. Um príncipe havia nascido dentro de mim, onde antes havia um vagabundo humilhado.

E, mais uma vez, as coisas aconteceram rápido demais.

Mas dessa vez eu estava preparado.

Ouvi um som de trás de um monte de escombros da casa. Um roçar que lembrava as unhas de gatos cavando a areia. Então, desacelerei o mundo, como vinha fazendo em minhas aulas de caratê. O corcoromel não era grande. Devia ter uns 40 ou 50 centímetros de altura. Correu pelo chão em direção ao plurinogorfo, pulou de lado, suas garras entrando facilmente no reboco dos restos de uma parede.

'Seu' Josias, abriu a boca ao ver o pequeno monstro, mas o grito pareceu demorar um século para chegar aos meus ouvidos. Quando chegou, o corcoromel já estava morto.

Eu o atravessei com uma barra de ferro que estava no chão um segundo antes. A barra penetrou por seu único olho e saiu pela barriga, espalhando um líquido branco e viscoso como o que sai das barrigas das baratas esmagadas.

Ele esticou três vezes as patas, estribuchando, e ficou quieto.

E então o grito de 'Seu' Josias chegou e encheu o ar.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Borboreal - Cap. 16

Não quis ficar perto daquele corpo. Não pensei, no momento, que minha vida estava em jogo. Ao ver aquele boneco sem vida e sem faces, duvidei de tudo. Da magia, de reinos distantes, de mim mesmo. Uma dor estranha fechou minha garganta e eu corri para longe. Algumas pessoas aproximavam-se do corpo. Imaginei policiais me perguntando sobre o que sabia a respeito do mendigo morto. A dor crescia e tentava explodir em meu peito.

Atravessei a Afonso Pena sem olhar para os lados, subi a Pernambuco e em instantes estava em frente à casa dos Passos. Entrei pelo portão semi-solto, como sempre fazíamos juntos, eu e 'Seu' Josias. Corri para o meio dos escombros por trás da fachada quase intacta, chutei pedras e pedaços de madeira, atirei tijolos partidos nas paredes e, por fim, me sentei no lugar onde sempre nos sentávamos quando ele ia me contar a história de meu reino e chorei.

- Não teve escola hoje? - disse 'Seu' Josias, levantando-se de onde sempre dormia.

Olhei para ela assombrado. Ele percebeu que eu chorava.

- O que houve? Falhei em minha tarefa de protegê-lo, majestade?

Eu me dei conta de que ele não me chamava de majestade há algum tempo.

- Foi tudo encenação? - perguntei, confuso - Foi dolorido, não faça isso de novo!

- Do que você está falando?

Sem paciência, contei a ele sobre a sua 'morte', certo de que ele me pregava uma peça. Mas quanto mais eu contava, mais suas feições refletiam medo.

- Parque Municipal? Ostrede! Ele está morto?

Falei sobre os buracos no peito. Ostrede era um nome? Percebi que assumi que meu guarda-costas se chamava 'Seu' Josias, mas ele devia ter outro nome.

Quando enfim comecei a me acalmar, ele contou:

Somos cinco no planeta. A rainha mandou o resto de nós para distrair possíveis assassinos enviados pelo usurpador. Cada um ficou com uma criança, quando chegou à Terra. Quatro buracos no peito significa que deve ser um corcoromel. São seres quadrúpedes, com patas que terminam em pontas afiadas. São rápidos como gotas de chuva.

Nós, plurinogorfos, não temo capacidade ilimitada de mutação. Assim, achamos mais prático assumirmos as mesmas feições. Até porque assim nos reconhecemos mais facilmente. Nós nos encontramos uma vez a cada dois anos para mudarmos de feição e trocarmos notícias. Mais do que isso seria perigoso. O terceiro encontro será daqui há dois meses.

Percebi que 'Seu' Josias estava apavorado com a possibilidade de um corcoromel. E o medo faz com que a gente cometa erros...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Borboreal - Cap. 15

Houve essa excursão do colégio ao Parque Municipal. Eu me sentia distante dos outros meninos e isso acabou me rendendo a fama de esquisito, nos últimos tempos. Sentei-me para apreciar os raios de sol que passavam entre as árvores e imaginei que talvez um desses raios pudesse ser manipulável.

Vi 'Seu' Josias na entrada do parque e acenei para ele. Era estranho saber que eu tinha essa espécie de guarda-costas mutante e não pude deixar de me sentir um pouco como John Connor nos filmes do Exterminador do Futuro.

'Seu' Josias não me respondeu. Ao invés disso, afastou-se apressado, como se meu aceno fosse um alerta de perigo. Então senti o balão de água explodir em minhas costas, me encharcando inteiro. Virei para trás e dois de meus colegas gargalhavam, apontando para mim.

- Ó o filho do homem do saco!! - gritou o primeiro, e gargalharam.

- Ó o amante de negro! - gritou o outro, o que realmente me tirou do sério. Enfiei meu punho na boca do imbecil, sentindo-o esparramar no chão como um monte de muco esverdeado. A professora começou a gritar, correndo em nossa direção. Eu imaginei o que viria daí e tomei uma decisão: corri atrás de 'Seu' Josias. Por que ele havia fugido de mim? Ele não deveria me proteger?

Corri para a saída do parque e alcancei a Av. dos Andradas a tempo de vê-lo virar na Alameda Álvaro Celso. Eu o persegui até a Bernardo Monteiro, me aproximando aos poucos. Ele já estava à distância de um grito quando virou na frente do Colégio Arnaldo.

Foi tudo tão rápido. Ele sumiu por trás de uma árvore e eu coloquei toda minha força nas pernas para alcançá-lo. Quando contornei a árvore, ele estava no chão. As pernas abertas, os olhos esbugalhados. Da boca, uma gosma azulada saia. Mais uma vez, ele pareceu sair de foco, mas dessa vez não assumiu outra feição. Seus traços humanos sumiram, como se ele fosse um desses bonecos de simulação de acidente de carro. Havia quatro furos no seu peito, um bem perto da garganta, os outros formando os vértices de um quadrado, nos dois lados do peito e no estômago. E eu entendi: ele estava morto.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Borboreal - Cap. 14

- Sabe o que eu não entendo? - perguntei, dois ou três dias depois - Se os exilados do nosso planeta colonizaram a Terra, como é que ninguém aqui sabe do nosso reino?

- Eles sabem... - respondeu 'Seu' Josias - mas pensam que são mitos... A história, pelo que consta, foi que os primeiros humanos que vieram parar aqui rapidamente descobriram que era impossível manipular o tempo ou a luz dessa dimensão. O que era ruim, mas ao mesmo tempo tornava o ambiente menos atrativo.

O primeiro humano que veio para cá, por exemplo. Tenho certeza de que você já ouviu seu nome. Chamava-se Adão. Ele formou uma pequena colônia e baseou as suas regras e leis na única coisa moldável, nesse planeta: o desejo.

Muito rápido, um de seus seguidores tomou o poder na pequena tribo. Ele confiscava o tempo e a luz que os recém-chegados traziam e, por fim, ninguém mais veio.

Em breve, não havia mais elementos manipuláveis e as gerações foram nos esquecendo aos poucos. Mas a história marcou as lendas...


- Por exemplo?

- Por exemplo, você se lembra como se chama nosso reino?

- Não... - admiti, envergonhado.

- Chama-se Paraíso...

Voltei para casa pensando em magias e milagres. É possível manipular desejos, nesse mundo. Fazia muito sentido, para mim. Um mundo movido a desejo, onde luz e tempo parecem sempre escassos. Não é assim, esse planetinha? Fui para minha aula de caratê com isso na cabeça. Não seria o tempo nem um pouquinho manipulável, nesse planeta? Algumas pessoas afirmavam que conseguiam fazer o tempo passar mais rápido ou mais devagar, mas eu me perguntava se não era apenas impressões que vinham do desejo.

Resolvi testar na aula de caratê. Afinal, se fosse possível manipular um pouco o tempo, minhas reações pareceriam ser as mais rápidas da turma.

Coloquei todo o meu desejo nisso. E era um desejo imenso.

No final de uma semana (eu treinava todos os dias), alguma coisa me parecia acontecer. Meus oponentes pareciam lentos. Eu podia ver suas mãos, vindo em minha direção. Era como se eles lutassem dentro da água. O rio do tempo os envolvia e, agora, eu sabia nadar.

Meu mestre elogiou minha concentração, durante a semana. Será que os sensei sabem que manipulam o tempo? Minimamente, tudo o que é possível nesse planetinha. Contei a ele que o tempo diminuia a velocidade quando eu me concentrava. Ele apenas sorriu.

Um mês depois, eu era faixa laranja.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 13

Há uma mágica que permite ver um determinado futuro. É claro que o futuro é feito de infinitas possibilidades, mas há uma espécie de 'curso provável' se determinadas condições forem mantidas.

Assim que soube que o primeiro vizir havia tomado o trono, a rainha lançou esse mágica para tentar ver se o futuro dos filhos e o do reino se entrelaçavam.

O que ela viu, nas imagens, foi seus dois filhos triunfando sobre os mortos e os portões de novo sob controle. Você dois irão penetrar em terreno eterno e resgatarão de lá o rei, que se tornará herói.
Um dos dois irá descobrir o terceiro portão e o reino voltara à normalidade. O outro reinará, com amor e compaixão, até seus últimos dias e junto ao rei-herói.

Mas há condições para que isso aconteça. A primeira delas é que vocês dois, príncipe e princesa, permaneçam vivos. Foi por isso que a rainha optou pelo exílio, pois sabia que entre duas guerras - contra Los e contra o primeiro vizir - o número de atentados contra a vida de vocês seria imenso, até porque o primeiro vizir deve ter lançado mão de mágica parecida para montar uma profecia a seu favor.

A magia anda escassa no reino, pois Los controla toda a luz. A rainha levara todo o estoque de luz, tempo e desejo que havia no castelo à guerra, para usá-la contra Los. Foi um golpe de sorte, já que deixou o primeiro vizir com quase nada. Mas soube-se que ele mandou buscar em todo o reino, invadindo casas, ameaçando e prendendo pessoas, para haver o máximo de luz e tempo manipuláveis que pudesse. Por alguma razão, ele não buscou desejos.

Havia outra condição: que vocês dois só retornassem ao reino quando Borboreal, o portão da luz, fosse fechado.

domingo, 29 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 12

- E minha mãe? - perguntei a ele, no dia seguinte. Eu me esforçava para atuar normalmente nesse mundo, pois não queria estragar meu próprio disfarce, mas era difícil. Sentia cada vez menos amor pelos terráqueos e saudades de um mundo que eu não conheci, mas que me acompanhava em algum canto fechado de meu inconsciente.

- O que tem sua mãe? - retorquiu 'Seu' Josias, obtuso.

- O que aconteceu com ela depois que me mandou para cá, oras! - respondi, um pouco impaciente.

- A rainha... Não sei... Eu vim para cá com você, não tive mais notícias. Seria perigoso entrar em contato, não acha? Eu só faria isso se você estivesse em perigo. No entanto, acho que alguém entraria em contato se fosse necessário ou se algo realmente ruim tivesse acontecido. A última notícia que tive dela era que ela comandava os exércitos contra Los.

Eu tinha uma espécie de sentimento de culpa por estar distante enquanto meu reino era atacado e usurpado. Passei a fazer exercícios, pedi para aprender caratê aos meus pais adotivos.

- Como é que eu sou tão parecido com os habitantes desse planeta?

- Eu já expliquei: esse planeta foi colonizado pelos exilados de nosso reino...

- Meus pais adotivos sabem?

- Que você não é filho deles? Não...

- Como?

- Você não quer ouvir essa história... - respondeu o plurinogorfo.

Mas eu queria. Então ele me contou...

Quando chegamos aqui, você era um bebê recém-nascido. Você precisava de uma família que, no entanto, não desconfiasse de nada. Ela devia acreditar que você era seu verdadeiro filho.

Então eu fui a uma maternidade e esperei que uma mulher entrasse na sala do parto. Sua mãe adotiva foi a escolhida, pois percebi que a criança que ela trazia no ventre era do seu tamanho. É claro, você já tinha algumas semanas de vida, mas nasceu relativamente pequeno e aquela mulher esperava um bebê de mais de quatro quilos.

Eu assumi o lugar de um dos enfermeiros e entrei na sala, deixando você escondido em uma barriga falsa. Agora, existe essa magia muito perigosa e que dura pouco tempo, mas que é capaz de parar o tempo por um instante rápido. Ela não exatamente pára o tempo como um todo, já que no resto do mundo os fatos continuam a se suceder, mas, dentro daquela sala, eu pude congelar o tempo daquela equipe, rezando para ninguém tentar entrar naquele exato instante.

Assim que o filho de sua mãe adotiva nasceu - o verdadeiro - eu parei o tempo e fiz a troca. E você se tornou 'filho legítimo' de seus pais...

- Uou... - eu disse, sem saber se achava o ato heróico ou monstruoso. - E o que aconteceu com o bebê?

- Eu o engoli... - contou, inseguro, 'Seu' Josias.

Arregalei os olhos. Em minha cabeça, a babá falando sobre o 'homem do saco' voltou, com força de uma revelação. Eu me levantei, instintivamente. 'Seu' Josias sorriu tentando ganhar de volta minha confiança.

- Talvez te interesse mais saber sobre a profecia...

Meu corpo estava tenso, mas minha cabeça registrou as palavras. Por fim, sentei-me, novamente. Ele realmente atiçou minha curiosidade...

sábado, 28 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 11

- Você quer dizer que eu tenho uma irmã? - eu perguntei, assombrado, a 'Seu' Josias. Uma parte de mim não queria acreditar na história, mas era uma parte pequena.

A maior parte de mim desejava ardentemente que ela fosse verdadeira.

- Quando você foi mandado para cá - disse o homem do saco - era pouco mais que um recém-nascido, por isso não se lembra dela.

- Há doze anos... - eu disse, sonhador. - Mas por que aqui?

- A Terra é um planeta de exilados. Quem veio para cá o fez porque queria ser esquecido. Com o passar dos séculos, o lugar tornou-se o que é hoje: uma terra sem lei. Ninguém ia imaginar que a rainha o mandaria para cá. É como se, para proteger alguém, você o mandasse para uma de suas cadeias. Não deixa de ser um esconderijo perfeito...

- Mas ela mandou você para me proteger, certo?

O velho sorriu.

- Então, onde você estava antes?

- O que?

- Tem pouco tempo que eu vejo você nas ruas, por perto. Você não deveria estar me protegendo?

- Eu estava. O tempo todo. Sou um plurinogorfo...

E, ao dizer isso, vi suas feições mudarem. A cor de sua pele se modificou. Por um instante, ele pareceu fora de foco - era difícil olhar para ele -, então quando voltou ao foco, eu reconheci seu rosto.

Era o ex-namorado da babá. Tinha ido algumas vezes lá em casa, e até brincado comigo. Sempre perguntando milhares de coisas.

E me assustei:

- Não me diga que a babá!...

- Não... - 'Seu' Josias respondeu - Ela é só uma 'inocente útil'...

Aquilo me reconfortou. Eu não queria que ela fosse uma de nós...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 10

Os portões têm guardiões. Se são chamados de guardiões, essa não é uma palavra que deixa claro o papel desses seres. Cada um tem sua função junto ao portão: a de garantir sua manutenção e, através do poder desses seres, permitir que a relação entre os mundos e os portões permaneça balanceada.

O que não significa que esses guardiões não tenham ambições e a de Los ficou muito clara, assim que observou o rei se afastar, embevecido de si mesmo.

Los é o guardião de Borboreal. Um antigo deus-estrela, ganancioso e desprovido de compaixão, que viu a chance de conquistar um novo mundo ao ver seu portão escancarado e não perdeu tempo.

É claro que só soubemos de sua passagem pela primeira conseqüência: o gelo do nosso pólo norte começou a derreter. Isso fez com que o volume de nossos mares aumentasse, fazendo desaparecer sob as águas uma parte de nossos continentes. Também matou muitos dos animais aquáticos e terrestres da região.

Quando a rainha percebeu que havia algo errado, usou uma de suas magias para vasculhar a parte norte do planeta e o que ela encontrou foi um imenso buraco sobre o pólo - na verdade o portão - que parecia sugar toda a luz da região.

O primeiro ataque de Los aconteceu logo depois. É um ser imenso, formado de pura luz, cujo urro pode derreter o metal. Forte como um grande exército, ele começou a avançar pelo pólo, atacando animais por se recusarem a obedecê-lo, fazendo com que desaparecessem numa explosão de luz.

A rainha deixou o primeiro vizir tomando conta do reino e partiu para o norte, arregimentando hordas para defendê-lo. E aí começou a segunda parte do nosso problema:

Tomado pelo desejo de poder, o primeiro vizir usurpou seu trono.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 9

Foram meses caminhando para o Norte, com as temperaturas esfriando a cada passo. Como na Terra, a região norte de nosso planeta é gelada e, em seu céu, pairam luzes. Luzes que parecem encortinar parte do céu.

O rei descobriu em suas pesquisas que as luzes eram mais do que simples fenômenos magnéticos ocasionados pelos pólos. Aquela cortina de luz era, na verdade, um portão.

Os antigos chamavam esse portão de Borboreal. E quem o atravessasse teria controle sobre toda a luz que necessitasse.

Usando uma mágica simples, conhecida como O Toque, o rei escancarou o portão, observando como a cortina de luzes parecia se retrair ao dar espaço para um imenso nada, tão negro que parecia engolir toda a luz em volta dele. Ninguém sabe bem com o que o rei se parecia quando saiu de lá, pois ele mandou apenas palavras, e não imagens. Sua excitação era palpável em sua voz, mesmo à distância. Ele urrava de contentamento enquanto explicava como podia fazer escorrer luz de seus dedos e cada um dos presentes desejou intensamente ver o rei e ser capaz de manipular toda aquela luz.

O rei nos informava que podia banhar de luzes diferentes qualquer matéria, fazendo-as mudar de cor ao seu bel-prazer! A neve, dizia ele, tinha milhões de cores que deslizavam ao sabor do vento. Antes de se despedir, o rei gritou:

- Em direção a Crevatolf!
Aquela foi a última vez que a rainha ouviu a voz de seu rei. Sabe-se, através de emissários do Sul, que ele atravessou Crevatolf, mas se desconhece o que aconteceu a partir daí. E não houve tempo de descobrir, pois o que o rei não sabia era que, depois de atravessar Borboreal - depois de atravessar qualquer dos portões - era necessário fechá-lo, novamente.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 8

Era uma vez, num reino distante, um rei que queria que a mágica fosse abundante, para que ele a pudesse distribuir livremente...

Eram poucos os habitantes do reino que conseguiam manipular os elementos que constituem as mágicas. Sabia-se que eram apenas três, esses elementos: a luz, o tempo e o desejo.

Esses poucos habitantes tinham a magia a dispor de seu caráter e, com isso, muitos não-magicistas eram oprimidos.

O caso é que havia pouca luz, pouco tempo e pouco desejo no reino que fossem facilmente manipuláveis e a rainha, uma grande magicista, tinha dificuldade de conseguir armazenar mais do que alguns punhados por ano.

Então o rei soube que havia um modo de inundar seu reino de luz, tempo e desejo - o que faria dele o mais generoso dos reis. E ele se dispôs a enfrentar as barreiras para ter total controle sobre a quantidade de elementos mágicos que poderia oferecer a quem quisesse.

O rei, com auxílio da rainha, descobriu que quem atravessasse os três portões elementais seria capaz de manipular a luz, o tempo e o desejo como quem tira água e sal do mar: com abundância e facilidade, à disposição.

Assim, o rei estudou e estudou e descobriu a localização dos três portões e, depois de alguns anos, partiu, mas não em comitiva. Saiu só, no começo da manhã (antes mesmo do sol se mostrar) em busca do primeiro portão.

Ele se despediu de sua filha Bea, que tinha dois anos nessa época e amou a rainha, deixando em seu ventre a semente que, algum tempo depois, se tornaria você, Majestade.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 7

- Por que majestade?

Perguntei, alguns dias depois. Passei a voltar todos os dias pela Bernardo Guimarães, conversando longamente com 'Seu' Josias, por vezes chegando em casa depois da hora do jantar.

O 'homem do saco' pareceu ficar sem jeito.

- Tudo é majestade! - exclamou, depois de algum tempo e, virando-se para uma planta: - Olá, majestade...

- Eu nunca te vi chamando nada nem ninguém de majestade. A babá, por exemplo, que te dá comida de vez em quando, você chama pelo nome. E eu acho que ganhar comida é importante o suficiente para transformar alguém em majestade...

- É que eu não sei o seu nome... - ele tentou de novo.

- Você sabe tudo da minha vida! Sabe até sobre as fadas! Vai tentar me convencer que não sabe meu nome?

O velho sentou-se embaixo de uma árvore, em frente à velha casa dos Passos, agora abandonada, que ele fazia de lar. A casa, tombada pelo patrimônio histórico de Minas Gerais, estava destruída por dentro (coisa de uma construtura que comprara a casa e queria demoli-la para fazer um prédio).

- Borboreal... - Ele disse, mas eu não compreendi. - O nome não te lembra nada, majestade? É claro que não... Borboreal é um lugar longe daqui. Mas não é longe em termos de distância, ou de tempo, que são as lonjuras que você conhece. Borboreal é longe daqui em termos de dimensões e universos.

E então ele, sem nem se dar conta do jargão, começou:

"Era uma vez..."

domingo, 22 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 6

'Seu' Josias me ajudou a catar meus livros espalhados e riu muito quando eu disse "acho que esqueci de fechar a mochila de novo...". Ele me acompanhou até em casa e conversamos sobre a minha vida. No entanto, o que me assustou um pouco, 'Seu' Josias foi quem mais falou. Ele me contou como eu era quando bebê e das agruras que eu passava com a minha babá. Sabia como eu ia na escola e quais meus amigos preferidos. Riu-se das criancices e gafes que eu cometi no passado.

Por fim, me perguntou: - Você ainda acredita em mágica?

Quando eu era pequeno, eu acreditava em fadas porque me lembrava de algumas delas voando sobre o meu berço. Eu tentava alcançá-las com a mão - fadas verdes listradas de amarelo ou vermelhas com rabos azuis - mas elas rodopiavam acima do meu alcance.

Mais tarde, a babá me provou que era um móbile de bichinhos. Foi uma decepção grande (tão grande quanto a mentira do Papai Noel). Tornei-me mais cético, a partir de então. Não acreditava em nada, só na ciência, que para mim se restringia às duas enciclopédias - Delta Júnior e Life - que tínhamos em casa.

Disse a verdade a 'Seu' Josias: eu não acreditava mais em mágica. Mas tinha medo dela. Talvez eu simplesmente não quisesse mais acreditar, como alguém que resolve não acreditar mais em Deus, ou na matemática, o que não fazia tais coisas desaparecerem.

'Seu' Josias gostou da resposta e, como agrado, tirou de seu saco uma pequena caixa. Era prateada e entalhada e muito fria ao toque. Ele disse que a guardasse no bolso e abrisse apenas na hora de dormir.

Chegamos ao portão de casa. A babá me esperava na porta e fez um escândalo ao me ver acompanhado pelo 'homem do saco'. Disse que diria a meus pais que eu estava conversando com estranhos.

- Estranha é você! - eu respondi, atrevido, o que resultou em um banho rápido e ir pra cama às 6h00 da tarde, sem jantar, sem ver meus pais que chegavam à noite do trabalho.

Remoendo a raiva, na cama, esqueci da caixa até que ficou escuro. Percebi que não enxergava mais cores (como acontece quando ficamos de olhos abertos num quarto escuro) e lembrei-me do presente. Levantei, tropecei nas coisas no chão até onde minha calça estava jogada e enfiei a mão no bolso.

Voltei para a cama sofrendo de antecipação: o que haveria na caixa? Minha imaginação começou a tentar se infiltrar em minha razão e eu tentei bravamente barrá-la. É um pequeno sapo! Minha parte racional disse. Ou é um velho ovo de passarinho, tão frágil que parece feito de uma matéria extraterrestre!...

Mas foi minha imaginação que acertou.

Quando, deitado de novo na cama, abri a pequena caixa, de lá escorreram fachos de luz que puseram a nadar em pleno ar, rodando em círculos. Eram verde-amarelos e azuis-vermelhos. Aos poucos, minha visão focou-se nas duas...

Eram as fadas de minha infância.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 5

Dois dias depois, 'Seu' Josias me salvou de novo do Trio Molequeza. E, dessa vez, definitivamente.

Apesar de não temer mais passar pela Bernardo Guimarães, eu ao mesmo tempo me sentia tímido de encontrar o homem novamente. Como agir? Cumprimento? Faço uma reverência? Ou só o miro e mantenho minha distância?

Resolvi voltar pela Aimorés. No primeiro dia, virei na rua vindo da Rua Pernambuco e comecei a correr. O Trio Molequeza estava na praça e, ao me ver, começaram a gritar e a correr. Mas o tempo de reação deles foi longo e eu cheguei vivo em casa.

No dia seguinte, eles fizeram uma emboscada.

Enquanto corria morro acima, passei por um portão recuado e percebi, com o canto dos olhos, o baixinho. Ele saiu do esconderijo quando me viu e gritou ("Burguesete fujão!"). Os dois mais velhos surgiram, imediatamente, à minha frente. O gordo de detrás de uma lixeira do outro lado da rua, o sardento, escondido em outro vão de muro.

Fiquei cercado. Rodava como um pião, vendo os três se aproximarem. Eles andavam devagar e, de repente, faziam algum movimento brusco, me dizendo com os gestos: "Pro lado que você correr, a gente corre atrás".

Encarei o magrelo, que era quem estava entre eu e minha casa. Eu conseguiria atropelá-lo na marra? Achei que não. E o gordo estava cada vez mais perto.

- Ah, de novo não! - disse o sardento, inconformado, olhando por cima do meu ombro. Mas antes que eu pudesse ver o que era, o gordo estava ao meu lado. Um empurrão fez com que meu corpo se chocasse com a parede e eu fui ao chão como um castelo de cartas, meus livros e cadernos se espalhando pelo chão, através da boca da mochila aberta.

Aí, os dois gritaram. Gritaram alto, gritaram muito. E correram como loucos Aimorés acima.

Olhei para baixo e 'Seu' Josias estava lá. Onde antes o baixinho tinha me cercado, agora estava seu saco. Ele fazia caretas bravas e ameaçava com os punhos para o alto.

Fiquei tão agradecido que nem me perguntei para onde teria ido o menor dos integrantes do Trio Molequeza.

Borboreal - Cap. 4


Não que sorrisos sejam necessariamente incríveis. Um sorriso pode ser prenúncio de desgraça, como o sorriso do Trio Molequeza, momentos antes.

Mas o sorriso de 'Seu' Josias tinha algo de sobrenatural e bom. Cheguei a cogitar a hipótese de um Papai Noel realmente existir e se disfarçar de mendigo durante o ano, para vigiar as criancinhas. Mas o sorriso não parecia de alguém que está a espreita de garotos para descobrir-lhes pecadinhos. Havia uma pureza que tornava o sorriso encantador. Quase hipnótico.

- Obrigado pela ajuda - balbuciei, e imaginei que ele pensaria que era pela mochila, mas era bem mais do que isso. Era por afastar os Molequeza. E era pelo sorriso.

- Por nada, majestade. - respondeu o homem, começando a voltar para a varanda de minha casa, atrás de seu saco que havia ficado no chão. Colocou-o nas costas, fez uma pequena mesura e saiu assobiando.

Fiquei na varanda olhando-o sumir atrás do muro e nem ouvi a porta abrir atrás de mim. Era a babá.

- O que você ainda está fazendo aí fora, garoto!? Não mandei você entrar? O homem do saco veio me perguntar se você era obediente...

Ela não tinha mais nenhum poder sobre mim. Simples assim, 'Seu' Josias me livrou de uma surra, me deu um sorriso mágico e me libertou do poder da babá.

E ainda fechou minha mochila! (como esquecer?)

"Majestade", pensei, ignorando a babá. Quem não sonhou que era adotado e seus pais eram, na verdade, reis em países distante e mágicos? Principalmente ao ter que passar a tarde com uma babá que queria nos dominar?

Passei a tarde dentro de minha cabeça, sendo majestade (para desespero da babá).

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 3

Virando-me, escondi atrás do muro, para sair do campo de visão do homem do saco. Meu coração batia na garganta. Olhei para a esquina. Os três meninos estavam parados, me olhando. Percebi que eles não tinham vindo atrás de mim mas, quando perceberam que eu temia alguma coisa, pude ver seus sorrisos malévolos se abrindo. O baixinho tentou sair correndo, mas foi impedido pelos maiores. Eles começaram a andar devagar em minha direção.

Eu quis correr na direção oposta, mas percebi que meus pés estavam pregados no chão. Eu era o coelho na frente dos faróis do caminhão. Com muito esforço, dei um passo para longe do muro. E outro. Eles estavam bem mais perto, agora. Nossos olhares se fixavam, os deles, brilhando de prazer. Os meus, de medo.

Eles continuaram se aproximando, cada vez mais leves, enquanto eu arrastava pés cada vez mais pesados. Então eles pararam.

Há cerca de dois metros de mim.

E o brilho em seus olhos havia sumido. O que estava lá, agora? Era desconfiança?

Não.

Era medo.

Certamente não era medo de mim.

Eles começaram a correr no momento exato em que eu ouvi o portão de minha casa se abrir. Uma parte de mim, que era otimista e começou a morrer nesse dia, desejou que fosse meu pai. Senti um cheiro ocre, então. E alcoólico.

Uma mão pousou em minhas costas.

- Sua mochila está aberta. - Eu ouvi a voz dizer. Continuei sem me mexer. Era como se a voz de 'Seu' Josias tivesse o poder do cabelo de cobras da medusa. Transformei-me num bloco de pedra e, no entanto, continuei de carne e osso. E medo.

Ouvi - estátuas desse tipo podem ouvir, ficou claro - o som do ziper se fechando, enquanto sentia o repuxar em minha mochila, lento. Desajeitado. Definitivamente, humano. Mantive os olhos abertos, para saber exatamente quando o mundo se apagaria dentro do terrível saco.

'Seu' Josias deu um passo para o lado, satisfeito.

- Prooonto! - Ele disse. E então fez algo incrível.

Ele sorriu.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 2

'Seu' Josias era um homem de pele estranha, escura mas de um tom diferente. Parecia sempre bêbado, a boca semi-aberta, os olhos semi-cerrados, o andar cambaleante. Não era necessário que ele fosse o homem do saco para que eu sentisse medo dele.

Ao voltar para casa da escola, eu tinha sempre uma decisão difícil pela frente: seguir pela Rua Aimorés podendo topar com o Trio Molequeza (que é como chamávamos os três pivetes que estavam sempre pela praça da Igreja da Boa Viagem e que gostava de tirar sarro dos 'burguesetes', como eles nos chamavam), ou seguir pela Bernardo Guimarães, correndo o risco de encontrar 'Seu' Josias. A decisão variava com meu comportamento na escola: se eu não tivesse brigado e fizesse o para-casa, preferia a Bernardo Guimarães, confiante de que o saco não estaria mirando em mim. Mas se o dia fosse de traquinagem, eu preferia enfrentar os moleques.

Naquele dia, eu tinha colocado chiclete no cabelo de Michele. Coitada, foi alvo de uma dessas apostas 'você não tem coragem...', tão comuns aos doze anos. Voltando para casa, peguei a Aimorés e corri morro acima, deixando para trás a sombra do trio, que a princípio pareceu não se importar muito, mas depois ficou me vendo olhá-los enquanto corria, o que os deixou incomodados. Gritaram alguma coisa, mas eu não pude ouvir. Virei na Sergipe e tive certeza que estaria salvo ao ver o portão no muro em frente à minha casa.

Ao tocá-lo, no entanto, empalideci. Foi com muito esforço que não mijei pelas calças. Sentado no chão da varanda, a cara enviada num marmitex, o saco displicentemente ao seu lado - um pouco aberto mas não o suficiente para que eu visse seu conteúdo - estava 'Seu' Josias.

Era isso.

Tinha chegado a minha vez.

O chiclete no cabelo tinha sido a gota d'água.

Voltei-me, pensando em correr para a Igreja e vi virar a esquina o Trio Molequeza. O sardento magrelo e o gordo de cabelo ensebado cutucavam o baixinho, que revidava com tapas nas mãos dos mais velhos.

Eles pararam quando me viram.

Virei de novo para o portão.

'Seu' Josias me olhava, com seus olhos nunca completamente abertos.

domingo, 15 de junho de 2008

Borboreal - Cap. 1


'Seu' Josias era nosso homem do saco.

Não sei se vocês sabem mas, pelo menos em Minas Gerais, toda vizinhança precisa de um homem do saco. É como as babás fazem para manter ordem na casa de crianças, como eu.

Tudo começa com uma ameaça: se você não fizer o que eu estou mandando, o homem do saco vem te pegar!

- Quem? - perguntam as crianças como eu, para aprender que o homem do saco é uma espécie de Papai Noel às inversas, que arrasta seu saco pelas ruas durante o dia até encontrar um menino mau. Aí, quando a noite cai, ele entra sorrateiro pelo janela do quarto do menino e o coloca no saco, levando-o para nunca mais ser visto...

Na primeira vez, impressiona. A gente pergunta:

- E o que acontece com o menino mau?

- O homem do saco os come! - responde a babá, satisfeita e certa que terá algum tempo de obediência.

- E por que ninguém prende esse maluco??? - eu perguntei, sem obter resposta.

Com o passar dos dias ou anos, o encanto sobre o homem do saco se esmaece. E, quando a babá percebe que o seu poder está a apenas uma linha de costura branca - ou ainda, a uma teia de aranha - de desaparecer, ela te leva para dar uma volta. Escolhendo caminhos conhecidos, ela te leva para onde sabe acampar o mendigo do bairro.

Ao vê-lo, ela pega a mão do menino, como eu, e diz, aparentemente aterrorizada:

- Lá está o homem do saco!!! - Voltando assim a ter completo poder sobre o menino. Ou, nesse caso: completo controle sobre mim.

E 'Seu' Josias era o meu homem do saco.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Mata Verde - Cap. 25

Ricardo não pensou duas vezes antes de encharcar meu cadáver com querosene. O delegado e a sobrinha apenas olharam, sem reação. Gavião aproximou-se, agachou-se ao lado de minha cabeça e quase foi atropelado por Ricardo ao tentar afagar meus cabelos. Muito tarde para arrependimentos, Sebastian!

Meu fogo ardeu no momento seguinte, o isqueiro de Ricardo dando a ignição. Sebastian levantou-se e tentou andar para trás.

Mas Ricardo não sabia que queimar meu corpo não era o suficiente. Ele não era meu único vínculo com a cidade. Eu não poderia me libertar só com isso.

Por isso, preparei-me para um último beijo: coloquei-me atrás de Sebastian e o esperei virar. Ele então viu meu rosto coberto de água, a boca escancarada cheia de dentes podres, os cabelos dessarrumados e flutuando no espaço sem atmosfera em que eu vivia.

Avancei para ele, minhas mãos geladas e esquálidas buscando seu rosto, minha língua grossa e maligna indo de encontro aos seus lábios. Eu o envolvi e o beijei quando ele abriu a boca para gritar. Tentou fugir de meu espírito e acabou jogando-se em cima do meu corpo, que ardia em chamas.

Fui atrás dele, e as labaredas vermelhas tornaram-se verdes e brancas. O fogo subiu ao consumir os dois amantes que mataram tantas e tantas pessoas na perdida cidade de Mata Verde. Ricardo, Maria Fé e o delegado simplesmente nos olharam queimar, incapazes de reagir. Foi quando Ricardo se deu conta de que havia colocado fogo no meio da floresta.

O fogo começou a cercar os três, obrigando-os a fugir. Não sei o que aconteceu com eles. Não pude segui-los: meu laço havia se rompido. Eu estava livre, enfim...

Essa é a história de Mata Verde. Mas eu não posso terminá-la sem deixar clara a sua lição de moral para todas as crianças, como havia prometido desde o começo.

Crianças: se vocês estiverem se sentindo solitários e injustiçados, se o mundo parecer podre e sua destruição parecer a única coisa correta, não saiam por aí comprando armas e matando seus coleguinhas na escola. Nem tentem se juntar a exércitos terroristas. Pensem na minha história...

E me chamem!

Eu estarei por perto, quando vocês estiverem sozinhos...

FIM

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Mata Verde - Cap. 24

Se Sebastian se divertiu por alguns instantes, o ódio no olhar de Ricardo acabou com seu regozijo. Para deixar clara nossa posição de que havia terminado o jogo, eu sussurrei nos ouvidos de Gavião um 'chega' lento e sibiloso. Eu também queria liberdade, depois de três décadas. Queria ir embora.

Sebastian já não se assustava comigo. Mas ainda sentia calafrios, por isso não olhou para o lado, buscando não ver minha face. E eu que esperava mais de um amante...

Pouco tempo depois, nós cinco andávamos em direção à floresta. Em direção a mim. Sebastian se lembrava bem do caminho, não precisei guiá-lo. Antes de sair, no entanto, o jovem Araucária conseguiu um galão de querosene na antiga fábrica de adubo.

O rapaz espumava de ódio e lágrimas gordas saiam de seus olhos. Seus pensamentos estavam cheios de imagens de Fernanda, estou certa. Mas dessa vez não fiquei com ciúmes. Sentia que o garoto ia me dar algo que eu sabia querer há muito. A ironia de manipular sua raiva para me beneficiar era doce.

Mas ele perdeu o encanto, caindo num golpe tão simples.

O quinteto (eu inclusa) fez algo que a ninguém era permitido: saiu dos limites da cidade. Se a maldição vingativa de Sebastian me impelia a matá-los, eu racionalizava pensando que o próprio Gavião anulava aquela parte da tarefa. Eles que seguissem, comigo ao seu lado.

A caminhada foi longa e silenciosa. Sebastian o tempo todo de olhos grudados no chão, tentando evitar-me. Maria Fé segurava o braço do tio, seus olhos cheios de incerteza. O próprio Delegado Ameixeiras dava passos incertos e retorcia o bigode grosso. Uma das mãos pressionava o peito, como se ali houvesse algum talismã capaz de protegê-lo. A outra mão estava no cabo de sua arma. Como era cheio de superstições, o velho!

Só Ricardo andava com passo firme. Atiçava Sebastian a andar mais rápido, enquanto o dia terminava por trás da copas das árvores.

Foi no lusco-fusco do pôr-de-sol que os pés de Ricardo roçaram o primeiro animal morto que rodeava meu santuário. Maria Fé levou a mão ao nariz, como se houvesse algum cheiro, mas não havia nenhum.

Deitada na relva, na posição que meu amante me deixara há tantos anos atrás, nós pudemos ver meu corpo transbordando água, que escorria livremente por meu nariz, minha boca e meu sexo. Não era água pura: era água das almas que absorvi todos esses anos.

Na relva da floresta amazônica, deitada em berço esplêndido, cheia de cicatrizes, estava minha prisão.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Mata Verde - Cap. 23

Passo a palavra a meu querido amante, Sebastian Gavião:

"Minha mãe me tirou da escola quando eu tinha 14 anos. Eu chegava em casa espancado todo santo dia. Crianças são bastante cruéis quando encarnam os preconceitos dos adultos.

Aos 18, eu vivia isolado do mundo. Tudo porque minha mãe me teve solteira. Eu não preciso contar ao delegado, ele estava lá. Os filhos dele me surraram diversas vezes. Eu odiava minha mãe por me fazer passar por isso. Parecia que eu e ela éramos as únicas pessoas que estavam todo o tempo sozinhas.

Eu saí andando pela mata, um dia. Vaguei por horas, pensando em me perder pela floresta e nunca mais voltar. Então encontrei algo estranho: uma pilha de animais mortos. Tão ressecados que, a princípio, pensei que fossem cascas de árvore. Eram dezenas, pequenos e grandes, de cachorros do mato a insetos.

No centro, encontrei uma mulher. Ela me parecia morta, mas seu corpo ainda conservava frescor. Era como se ela suasse, seu corpo coberto por uma umidade estranha, viscosa. Concluí que ela dormia e a possuí. E enquanto eu me aproveitava de seu corpo, desejava vingança de cada desgraçado morador de Mata Verde.

Na minha cabeça, a vingança perfeita seria que apenas eu pudesse possuir solidão na cidade...

Todo o resto estaria condenado à eterna companhia ou à morte. E eu gozei naquele corpo desejando intensamente, gritando que eu merecia ser vingado.

Na volta para a cidade, notei que era seguido. Ao me virar, eu a vi. Era a morta, mas em seu verdadeiro estado: decomposta, aterrorizante, definitivamente morta! Corri o quanto pude mas, ao chegar em casa, eu a vi debruçada sobre minha mãe, sugando sua alma, como se chupa uma laranja.

Ela sorriu para mim, a coisa, e me deixou só. Naquela noite, morreram tantas pessoas... O delegado se lembra, com certeza. Foi quando a cidade a conheceu.

Ninguém se lembrou de vir nos checar. Acho que ninguém se importava com a pecadora e seu filho bastardo. Achei que eu morreria sem ver ninguém vir aqui. Sem que ninguém ligasse os pontos.

Mas é tão bom vocês estarem aqui, agora..." Disse meu amante, com um sorriso levemente malvado. "A vingança só é realmente boa quando quem a sofre sabe. Agora vocês podem espalhar para todos que os Gaviões se vingaram dessa maldita cidade!"

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Mata Verde - Cap. 22

Passaram-se vários minutos até alguém atender a porta da casa dos Gaviões. Quando ela enfim se abriu, não mais do que uma brecha, revelou um homem com cabelos brancos e rugas, que aparentava ser muito mais velho do que os 48 anos que tinha.

Ele olhou o grupo com cuidado. Certamente se lembrava do delegado, mas não conhecia os dois jovens. Olhou para trás e por um instante, pareceu que ia gritar para dentro, mas desistiu. Procurou-me, com os olhos, mas eu já estava dentro da casa, bem escondida para ouvir a conversa sem ser vista.

- Enfim, descobriu, não é? Posso parar com a farsa?

O delegado não entendeu completamente o que acontecia, mas concordou com a cabeça. Pediu que Sebastian os deixasse entrar. O homem escancarou a porta e deu passagem àquela comitiva.

- Onde está sua mãe, Sebastian?

Ele pareceu se surpreender. Seu olhar dizia: então vocês não sabem de nada...

- Ela morreu, senhor delegado. - Ele respondeu. Parecia cansado de mentir. - Ela foi a primeira vítima...

- Ok, Senhor Gavião, - intrometeu-se Ricardo - por que você não nos conta tudo, desde o início?

Sentaram-se, na sala, e eu fiquei no quarto, junto com o cadáver ressequido de Helena Gavião que jazia na cama.

- Posso tentar, - Disse a voz cansada. - mas é tudo tão antigo...

domingo, 8 de junho de 2008

Mata Verde - Cap. 21

- Gavião não é um pássaro... - disse o delegado, assim que Ricardo contou a ele o que havia no bilhete. - É uma família...

- Achei que todas as famílias aqui tivessem sobrenome de árvore...

- Não é uma família daqui... Helena Gavião chegou em Mata Verde há uns 50 anos.

- E foi quando as mortes começaram! - Ricardo exclamou.

- Não!... - retorquiu Ameixeiras. - As mortes começaram anos depois.

Ricardo balançou a cabeça. Mas os três decidiram visitar os Gaviões. Enquanto caminhávamos - eu tão perto deles que eles podiam sentir meu odor - o delegado Ameixeiras contou a história de Helena Gavião.

- Ela chegou à cidade da forma mais discreta possível. Foi morar numa pensão e procurou trabalho pela cidade toda. A maioria de nós tinha a impressão que ela fugia de alguma coisa e, ao se passarem alguns meses, a cidade entendeu do que.

O delegado coçou o bigode branco e continuou.

- Eu devia ter uns 12 anos quando ela chegou e assim que aquela barriga apareceu, todo mundo da cidade começou a evitá-la. Lembro-me de minha mãe me proibindo de olhar para ela e de fazer perguntas a respeito.

- Ela acabou ficando na cidade - continuou Ameixeiras - empregada da antiga fábrica de adubo, onde passou a morar, num casebre nos fundos do terreno. Dizem que o dono da fábrica abusou dela de todas as formas, o que só aumentou o preconceito da cidade contra ela.

- Eram outros tempos... - tentou se desculpar o delegado, vendo a desaprovação na expressão de Ricardo - e éramos uma cidadezinha tradicional, tentando crescer... A pobre mulher ficou isolada com o filho bastardo, mesmo quando a fábrica fechou, após a morte do dono, uma das primeiras atribuídas a Carapanã.

Odeio essa denominação... Ao longe, crescia a imagem escura e aos escombros da fábrica de adubo.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Mata Verde - Cap. 20

Ricardo tirou o papel do bolso e olhou a letra conhecida de Fernanda. Gavião. Ele não entendeu de primeira. Acontece quando estamos chateados, eu entendo. A cabeça pára de funcionar porque a tristeza é como uma névoa baixa nos caminhos do cérebro, fazendo com que os pensamentos se percam em curvas e voltem sempre ao mesmo ponto. O cérebro triste é kafkaniano, fazendo todo o esforço para sair do lugar sem perceber que todo o esforço é para ficar parado.

Gavião. Ele disse a palavra em voz alta, atraindo a atenção de Maria Fé.

- Gavião? - ela repetiu, sem entender. Ele explicou que no bilhete de Fernanda só havia uma palavra: gavião.

Maria Fé não sabia muito dos pássaros da região. É claro que haviam gaviões na floresta, mas não se via um na cidade - não se via pássaro de espécie alguma na cidade - a um bocado de tempo. Culpa minha, eu sei. Pássaros não são grandes fãs de almas amaldiçoadas.

Gavião. Por mais que Ricardo pensasse, não entendia minha mensagem. Era preciso que ele conhecesse melhor Mata Verde para isso.

Foi um tempo que passei frustrada, esperando que algo acontecesse. Amaldiçoei-me - o que não deixa de ser irônico, por ser a segunda vez - por não ter sido mais clara. Eu podia ter deixado duas palavras, não? Uma frase, até! Mas não: quis manter o charme e paguei o preço, tendo que esperar o paspalho e a desmiolada se darem conta do Gavião...

A irritação não ajudava em nada. Mas era tudo o que eu podia fazer. A casa dos Araucárias percebeu e tremeu de medo. As janelas tilintavam como dentes. As luzes piscavam como olhos. E, num espasmo nervoso, a casa cuspiu seus dois moradores para a rua.

Eles correram para a delegacia, assustados.

Obrigado, Casa.

domingo, 1 de junho de 2008

Mata Verde - Cap. 19

O amor tem um ótimo sexto sentido. Fernanda sabia bem que Ricardo não amava aquela menininha. Sabia disso porque o amor dizia a ela que o tremor nos ombros dele enquanto se afastava era um chorar escondido.

Por isso, ela parou o carro depois da curva, de modo a não ser mais vista, esperou a noite cair e voltou, para descobrir por que estavam prendendo Ricardo naquela cidadezinha.

Era pouco mais de meia noite quando ela entrou nos limites da cidade.

O amor tem um ótimo sexto sentido, mas nenhum senso de auto-preservação, nós sabemos!

Foi interessante notar que eu ainda conseguia falar, depois de minha vida tão selvagem. Achei que ela não me ouviria, mas ela me ouviu. E, mesmo apavorada, fez tudo o que eu queria, antes de morrer.

Ah, como se eu não fosse matar minha sede só porque ela me fez um favor...

O corpo da garota foi encontrado pela manhã.

O delegado entrou na casa de Ricardo e Maria Fé tentando parecer tranqüilo. E, o mais rápido que pode, algemou os dois. Tenho que reconhecer sua inteligência: se Ricardo estivesse solto, correria para mim pensando estar correndo para sua amada.

Maria Fé teve que ficar ajoelhada ao seu lado enquanto ele se agarrava ao corpo ressequido de Fernanda. Foi ela que tirou o bilhete do bolso da morta. Mas respeitou o suficiente Ricardo para entregar-lhe o pedaço de papel.

Em caneta azul (sim, eu preferiria sangue: é uma coisa que acontece ao morrermos: ficamos mais mórbidos), na letra arredondada da garota, havia apenas uma palavra.

"Gavião".

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 18

Deus meu! Enquanto eu falo como uma maritaca, a vida vai rodando e eu a perco! Eu tive que parar de pensar em minha própria vida, pois o vigia tocou alarme e, meia hora depois, o delegado e um policial vieram pegar Ricardo e Maria Fé.

Ricardo tinha visitas.

Ele foi levado ao limite da cidade, de onde pode ver seu carro, a porta escancarada e a lataria suja e com pegadas. Mas nem prestou atenção ao ver Fernanda sob a mira do revólver do vigia.

- Ricardo! - Ela gritou e fez menção de começar a correr, mas o vigia gritou mais alto e ela parou.

Ricardo não teve palavras. As emoções de Mata Verde o fizeram esquecer de Fernanda e ela lhe parecia uma foto em preto e branco de um passado distante. Mas, ao vê-la, a foto se encheu de cores. Confesso que senti uma pitada de ciúmes ao perceber que ele a amava. Certamente Maria Fé também.

Foi provavelmente por isso que ela o enlaçou tão rapidamente, juntando seu corpo no dele. Sussurrou em seu ouvido que ele não podia deixá-la entrar, condená-la a viver para sempre com medo de mim. Ele a abraçou de volta.

- Vai embora, Fernanda. - Ele disse e virou as costas, indo embora. O efeito dramático foi forte em Fernanda, mas a intenção de Ricardo foi simplesmente não deixá-la ver que ele chorava.

Foi naquele exato momento que Ricardo decidiu que descobriria como terminar com a maldição que dominava Mata Verde. Percebi que ele estava determinado a livrar a cidade de mim.

Como se eu quisesse ficar naquela maldita cidade.

É claro, eu iria ajudá-lo, a se livrar de mim.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 17

Foi de tanto vagar por anos a fio que terminei nas terras que hoje são chamadas de Mato Grosso, na medula da mata amazônica. Fui deixando de ser gente, virando a cada instante bicho. Sentia que me surgiam pêlos nas faces e, ao beber água no rio, percebi que, enfim, tinha me tornado uma cadela do mato. Mas ainda levemente humana, com meu cabelo escorrido de branco arrastando-se no chão, que agora ficava próximo, pois eu andava de quatro.

Prometi que nunca mais chegaria perto d'água, com medo de descobrir que nada humano havia sobrado. No fim de 4 dias, eu me sentia fraca e tomei a decisão de morrer.

Me pareceu tão simples e conveniente!

É claro que não foi assim... A sede, enfim, me deixou prostrada. Meus membros já não suportavam meu peso e meu pescoço era tão bambo quanto o de um recém-nascido. Na desidratação, eu já não tinha lágrimas, mas chorei a seco de dor e solidão.

Então, ele apareceu. Quando eu estava mais morta do que viva, quando não restava mais do que um suspiro, apareceu meu velho conhecido.

O mesmo cachorro do mato que havia comido parte de mim quando eu nasci.

Reconheci suas manchas e o olhar faminto e raivoso. Abri a boca para gritar e afugentá-lo.

Mas morri antes.

Ele se aproximou de meu corpo, que eu sentia menos meu e mais distante, como se o mundo todo se expandisse à minha volta. Só um fio de luz ainda me mantinha minimamente presa àquela casca de carne que o cachorro contornava, aproximando-se aos poucos.

Ele abocanhou de leve a batata de minha perna e aumentou aos poucos a força da mandíbula, ao mesmo tempo em que fazia força para puxar-me. Não houve dor. Nem resistência. Ele soube que eu estava morta e ia terminar o banquete que começara um tempo incontável atrás.

Todo meu ódio virou sede. O fio de luz que saía de mim e entrava no umbigo do meu corpo brilhou com intensidade.

E eu matei minha sede naquele cachorro desgraçado, ouvindo o mesmo ganido que marcara meu ouvido quando havia acabado de nascer.

Foi a última vez que ouvi aquele ganido.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 16

Não chegou a ser feliz minha curta estada em Quilombo do Sapé. Mas foi tranqüila. O problema é que viver em sociedade me incomodava. Eu me sentia observada e mal-quista por todos, mesmo quando faziam esforços genuínos para me aceitar. Terminei por abandonar a cidade numa noite escura. Fui seguir vagalumes e deixei a gorda velha, de quem não consigo me lembrar o nome, para nunca mais.

E, no entanto, eu me sentia solitária. Não queria todos nem nenhum, queria um. Mas só o conheci depois de morta. Eu sabia sobreviver das matas e tentei me embrenhar por elas e evitar todo agrupamento de gente. Ficava na beirada dos rios esperando meninos irem se banhar sozinhos. Tentava amá-los atraindo-os para o meio das águas, o que me valeu o título de Uiara.

Alguns morreram por minha causa, tentando fugir em pânico de minha presença. Mas nunca consegui afeto. Continuei me embrenhando, envelhecendo, me consumindo de vazio de alma e, aos poucos, fui ficando vingativa. Não contra alguém em particular, mas contra o fato do mundo ser tão sozinho. Nem era amor que eu exigia, mais. Acho que perdi minha alma, nessa época. Ficou apenas o rancor e a carne desejosa.

Acho que foi isso que me atraiu para ele. Mas o fato é que só depois de morta meu corpo foi desejado.

domingo, 25 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 15

Nunca achei interessante, mas já que estamos aqui, me dêem um minuto de paciência para contar minha história.

Nasci em Minas Gerais, numa velha cidade chamada Moeda. Nasci meio branca, meio negra, numa época em que os escravos ainda andavam em grilhões. Sei que minha mãe era escrava, mas não sei se fui abandonada por ordem do patrão ou por compaixão: talvez minha mãe me preferisse morta a me ver nas correntes.

Quando meu padrinho me achou, eu estava coberta de formigas, deitada em folhas de bananeira arrumadas às pressas. Acho que fui parida ali, naquelas folhas, sobre aquelas formigas que tão prontamente me acolheram em seus ferrões.

Quando meu padrinho me achou, teve que afugentar o cachorro do mato que mastigava o que devia ter sido a minha placenta. A besta rosnou enquanto andava de costas e me puxava pelo cordão umbilical ainda ligado à bolsa que levava em sua boca. Foi uma pedrada certeira que fez o cachorro me soltar e - eu sei, parece loucura, mas guardei até a morte o ganido do cão em meu umbigo, como uma cicatriz sonora de raiva e medo da vida.

Meu padrinho me pegou no colo e voltou a correr, o metal, ainda atarrachado a seus pés, cortando a carne enquanto ele se embrenhava para o meio do mato, subindo morro, buscando liberdade. Buscando quilombo, que nunca achou.

Por isso vivi minha vida toda no meio do mato, nos morros de Minas. Fugindo sempre. Sem saber o que era outra gente que não meu padrinho.

Foram muitos anos que se passaram e eu já tinha peito e cabelo nas partes íntimas quando, enfim, encontrei um quilombo. Era Sapé, que me acolheu. Meu padrinho já tinha morrido, picado de cobra. Sem saber o que fazer com o corpo e sem querer largá-los para os cachorros do mato, deixei-o descer o Rio Paraopeba, e vaguei até a cidade só de negros.

Meu padrinho havia me ensinado a falar, então pude contar minha história quando uma negra muito velha e muito gorda, anciã em Sapé, me contou que não era preciso fugir mais.

A escravidão havia terminado.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Perdoem a nossa falha

Este autor está fora do ar por alguns dias, devido a falhas técnicas. A programação do Hiscas voltará ao normal assim que tudo se normalizar.

Agradecemos a compreensão.

Adendo em 25/5/2008
Voltamos à nossa programação normal (assim espero...)

domingo, 18 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 14

O tempo começou a passar lento. Ricardo entrou num estado de estranhamento com o mundo. Eu o via deitado ao lado de Maria Fé, com os olhos esbugalhados, dormindo de forma picada, tentando encostar a mão na garota para ter certeza de não estar sozinho. Nos dias que se seguiram, pediu encarecidamente ao delegado que não retirasse as algemas que prendiam o casal. Precisava de tempo.

O passar lento do tempo me enchia de tédio. A essa altura, morta a tanto tempo, eu deveria já ter me acostumado à sensação de fome constante, mas não era bem assim. Eu tinha ódio do fato de ser mantida presa naquela cidade. Numa cidade grande, é inevitável que alguém fique sozinho. Não há como impedir.

Mas numa cidade pequena e perdida como Mata Verde, estava sendo possível. Os descuidos eram tão raros! (Antes do pequeno Pinheiro, eu não me alimentava há mais de 3 anos!). Houve um tempo, no começo de tudo, em que eu me chafurdava em almas. Ah, que lembrança boa! A cidade ainda não me conhecia. Demorou alguns meses para eles entenderem que não podiam ficar sozinhos. E mais alguns meses para todos se convencerem. E ainda outros para eles descobrirem que não podiam deixar a cidade. Lembro-me bem quando eles tentaram sair em grandes grupos, pensando que era assim, simples, me evitar! Que festa eu fiz! Quinze, vinte pessoas de uma vez! Todas com os olhares saltados ao me ver, soltando fogo pelas ventas ao respirar, minhas mãos de dedos compridos indo atrás de gargantas horrorizadas. Ganhei o apelido de Carapanã, depois disso, o que não achei muito lisongeiro, mas melhor do que Chupa-cabra...

Durante muito tempo, a cidade ficou catatônica, como o pequeno Victor. Mas aos poucos começou a se adaptar. Tenho que admirar isso nos seres humanos: são capazes de se adaptar a tudo! Depois de alguns anos, seu dia-a-dia foi se modificando, os modos de trabalho, as rotinas, até leis eles criaram e modificaram para conviver comigo. Depois de cinco ou seis anos, eles até voltaram a ter filhos! Fico impressionada... Mas eu me lembro como é estar viva e posso afirmar que eu também me adaptava muito bem ao mundo.

Só não consegui me adaptar tão bem à minha morte...

Mata Verde - Cap. 13

Tenho a impressão que foi o irmão e a cunhada de Marconi que conseguiram encontrar o delegado e trazê-lo, correndo. Ele entrou no quarto das crianças Pinheiro e não penso que se lembrasse da existência de Ricardo Araucária.

Mas Maria Fé lembrava. Puxava-o pelo braço, querendo que ele entendesse o que estava acontecendo ali.

E ele entendeu. Viu o desespero da mãe, jogada de joelhos aos pés do delegado. Viu o pai brandindo o cinto e gritando o nome de Victor que, Ricardo provavelmente intuiu, era a criança sentada no chão, encolhida, que parecia catatônica. Viu que eram necessárias três pessoas para segurar a fúria do pai.

Ouviu a mãe implorar para que o delegado não prendesse o filho e, estou certa - rapaz inteligente como ele é - que entendeu, pelas súplicas da mãe, que Victor poderia ser acusado de assassinato por ter deixado o bebê sozinho.

Enfim, enquanto todo mundo tentava resolver alguma crise, Maria Fé puxou Ricardo até o berço.

E ele entendeu que não devia ficar sozinho em Mata Verde. Ficamos tão próximos, eu, de um lado do berço, arrotando a podridão em que havia transformado a alma do recém-perecido, e ele e Maria Fé, do outro lado, sentindo o cheiro de meus gases, retorcendo o nariz.

Se ainda restava alguma dúvida para Ricardo, ela fez as malas quando ele tocou o pequeno cadáver e percebeu que o corpo ainda estava quente.

No canto, um dos homens que tentava segurar o pai sangrava em decorrência de um soco que Marconi havia acertado ao tentar se livrar. Ele agora se acalmava e os três conseguiram fazê-lo sentar no chão.

O delegado levantara Rafaela e a abraçava, enquanto ela chorava copiosamente.

Victor continuava catatônico.

Tudo isso entrava na mente arguta do jovem Araucária e, mais uma vez, eu percebi que poderia me apaixonar por aquele homem belo e inteligente, se a situação fosse diferente.

Mas não era. Por isso eu teria que me contentar em esperar um descuido... E beber sua alma.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 12

Na tristeza da solidão: é só quando eles conseguem me ver.

Mas é um momento doce. Sinto o aroma da adrenalina misturando-se, freqüentemente, ao da urina que escorre pelas pernas do vivente. O terror se espalhando pela alma é como uma preliminar. É o beijo que antecede o coito.

Nesse caso, o bebê Pinheiro foi um tanto frustrante. Aliás, foi duplamente frustrante.

Primeiro, porque em sua inocência de primeiros dias, enxergando apenas manchas e luzes, ele não me distinguiu da própria mãe, certamente. O que é irônico, mas não tão gostoso quanto olhos horrorizados. Em segundo lugar, porque naquele corpo havia tão pouca alma. Foi como beber vinho no copo de cachaça: deixa um gosto de quero-mais.

Ainda assim, foi prazeroso enfiar minhas garras imateriais em sua pele tenra e rosada, estraçalhando células e liberando todo o líquido guardado no corpinho. Abocanhar seu rosto com minha boca porca e imunda, minha língua penetrando nas mínimas narinas e sugando, sugando... Eu tinha fome! Há tanto tempo as pessoas dessa cidade maldita não se descuidavam! Eu tinha tanta fome!

Os movimentos dos bracinhos e perninhas foram ralentando até se congelarem numa carcaça oca e seca, cortiça de carne humana. Quando Rafaela e Marconi entraram no quarto, eu já arrotava a alma de seu filho recém-perecido. Tinha gosto de gozo feminino. Gosto de amêndoas e ferrugem.

Eu amo os pequenos descuidos.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 11

Maria Fé reportou todo o caso para seu tio, o delegado. Os dois sentaram-se e tentaram - a princípio calmamente, mas cada vez mais exasperados - fazer com que Ricardo focasse no que era realmente importante: como aquele homem havia morrido.

Ao invés de se deixar convencer, o rapaz se tornava cada vez mais resistente. Quanto maior o esforço de Ameixeiras e de sua sobrinha de fazê-lo entender a situação, mais Ricardo tentava argumentar que eles estavam cegos pela superstição. O delegado havia algemado novamente Ricardo a Maria Fé e a discussão teria levado dias...

Mas o timming do destino muitas vezes ajuda o herói.

E, nesse ponto, tenho que deixar a história de Ricardo por um instante e me concentrar numa casa há alguns quarteirões dali. Na casa onde Rafaela Pinheiro terminava de dar banho em seu bebê.

O filho mais velho de Rafaela, Victor, lia revistinhas do alto de seus 4 anos, a um canto do quarto. Ele não exatamente lia, é claro. Sua vista passava de desenho para outro, irritado com o choro da criança e com o ninar murmurado da mãe.

A filha do meio, Clara, observava a mãe de perto, interessada no irmãozinho recém-nascido como se fosse um exótico animal marinho. Morreu de rir ao vê-lo fazer cocô na toalha, borrando a fralda próxima e encharcando de fezes líquidas a mão de Rafaela. Foi um suspiro cheio de impaciência que ela soltou!

E então a campainha tocou. Era Marconi Pinheiro que chegava do trabalho. Vinha, como sempre, acompanhado de Marta e João (irmão e cunhada que trabalhavam na mesma loja, se é que esses detalhes importam) e os dois provavelmente estavam com pressa, como sempre.

Suja de fezes, Rafaela não tinha como pegar o bebê. Clara era pequena demais para carregá-lo. Optou pelo mais simples: ordenou que Victor ficasse no quarto e saiu apressada para abrir a porta, tentando puxar uma Clara enojada, que queria acompanhá-la o mais longe possível daquelas mãos pegajosas e amarronzadas.

Se eu fosse psicanalista, diria que foi o inconsciente de Victor, enciumado e de saco cheio com os choros, que o fez não entender o que sua mãe dissera. Com os olhos fixos nos quadrinho, saiu atrás dela (depois, diria que a mãe o havia chamado para acompanhá-la).

E assim, o bebê ficou sozinho por alguns instantes.

Não muitos, é verdade. Rafaela abriu a porta, cumprimentou Marta e João, que cumprimentaram de volta, aos três que estavam junto à porta. Ao ouvir o 'oi, Victor', o coração de Rafaela parou por um instante. Ela gritou, agarrou o braço do marido e correu para o quarto.

Se eu tivesse um relógio, diria que o recém-nascido não ficou sozinho mais do que meio minuto.

Mas eu sou rápida.

domingo, 11 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 10

O raiar do sol pegou Ricardo e Maria Fé de volta à casa. Ela ainda tremia de pensar no cadáver que haviam encontrado. Era apenas atuação, sinto informar-lhes, e Ricardo - um rapaz inteligente - perceberia em breve. Mas, por enquanto, ele ainda acreditava nela. Um pouco pelo fato de também estar assustado. Aquilo que encontraram havia sido um homem. Por alguns momentos, ele quis acreditar que era uma escultura funesta ou um retorcido e apodrecido tronco, mas algo na forma com que as mãos da coisa pressionavam a face e aqueles olhos tão brancos diziam a ele: foi um cadáver que encontramos. Foi um cadáver.

O esvair calmo do tempo na cidade aos poucos colocou seus nervos no lugar. Era mesmo um homem morto que haviam encontrado, mas...

- Desculpe... - disse Maria Fé. - Eu fiquei tão nervosa...

Ele a encarou em dúvida, e depois incrédulo.

- Você conhece muito bem a região...

Houve um silêncio constrangedor.

- E não é como se aquele homem estivesse lá a pouco tempo... Havia poeira, teia de aranhas, lodo...

Maria Fé reergueu a coluna e relaxou os ombros, até então encolhidos. Percebeu que a farsa terminara. Ninguém podia culpá-la: ela fizera sua parte...

- Você deliberadamente me levou para ver aquele homem.

- Foi para o seu bem, Ricardo. Queríamos que você entendesse o perigo que corre.

- Que perigo eu corro? De ser atacado pela imaginação fértil de todos vocês?! Me diga: vai entrar aqui o boitatá ou o curupira e chupar o meu sangue??

Pela primeira vez, quis entrar na conversa contra Ricardo. Ele acusava a todos de mentirosos? Cheguei a ficar levemente ofendida. Mas Maria Fé deu a resposta perfeita. Ela perguntou:

- Sabe qual é o problema de vocês, os céticos?

- Qual o nosso problema? - Ricardo disse em tom irônico.

- Vocês são os primeiros a morrer.

sábado, 10 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 9

- Já é seguro acender a lanterna? - perguntou Maria Fé.

Ricardo olhou para trás. As três lamparinas acesas em postes, única iluminação pública da pequena cidade, ficavam cada vez mais distantes. O potente facho da lanterna iluminou a frente, batendo, ao longe, nas paredes laterais de uma casa afastada.

- Está deserta - explicou a garota. - O dono sumiu há muitos anos e não se sabe de parentes.

À medida que se aproximavam da casa, tomaram a direita. Maria Fé explicou que os limites da cidade estavam próximos, pouco depois da casa, que era a última. Ela guiava Ricardo que ia à sua frente, cuidadoso, com a lanterna baixa para não chamar atenção.

Ao fazerem um pequeno desvio à direita, a luz da lanterna incidiu sobre algo. Esse algo já havia sido um homem. Eu o conheci. Seu nome era Terêncio Cajuzeiro. A lanterna potente iluminou quase todo o seu corpo, sentado e encolhido, na grama.

Um calafrio percorreu Ricardo ao perceber a pele acinzentada colada aos ossos do cadáver. Os joelhos recolhidos junto ao peito, os braços dobrados, as mãos, muito fechadas, comprimindo os ossos das maçãs do rosto, a boca aberta, a bochecha seca - uma fina película revestindo, côncava, o buraco da boca - e, como detalhe grotesco, uma empoeirada teia de aranha formara-se em seus lábios. Os cabelos, ainda abundantes, prendiam-se sujos e cobertos de lodo à fina pele do crânio, às têmporas e à testa.

Mas o que realmente prendia a atenção eram os olhos. Em pálpebras ressequidas, os glóbulos, ainda muito brancos, congelaram-se soltos. As íris e as pupilas dilatadas pareciam fixar a luz da lanterna. Eram olhos assustados.

Na minha opinião pessoal - e parte dos moradores da cidade concordariam comigo, mas não todos - o que aconteceu a Terêncio Cajueiro foi que sugaram sua alma.

Por séculos e séculos a alma foi procurada dentro de órgãos como o cérebro ou o coração. Mas alma é umidez. Ela espalha-se por todo o corpo, em seus líquidos. Não apenas no sangue, ou na saliva ou urina. Dentro das células, a alma circula fluida. Os cientistas dizem que o corpo humano é 70% água. Eu digo que o corpo humano é 70% alma.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 8

No entanto, aos poucos, Ricardo foi ganhando a confiança de Maria Fé. E, ao meu parecer, seu coração. Era possível ver os dois gargalhando na sala, com os casos e piadas que Ricardo tirava das mangas, como um mágico algemado à sua platéia.

Ela ouvia com atenção o que ele dizia, mesmo quando ele cochichava insubordinações e rebeldias em seu ouvido, o que ficava patente pela forma com que ele parecia cheio de raiva e ela cheia de medo.

Mas ela o ouvia.

E ele era bom: depressa, ganhou a confiança dos outros. Aos poucos - para que ninguém duvidasse de uma mudança assim, repentina - ele se deixou levar pelos casos e avisos dos mais velhos. Quisera eu ter sua audácia e sua inteligência. E sua sedução, por que não dizer? Em menos de dois meses, o velho Ameixeiras concordou que os dois poderiam ficar sem as algemas.

Mas a vida é cheia de surpresas: na segunda noite sem algemas, o rapaz acordou Maria Fé.

- É hoje! - Ele sussurou.

- É muito cedo! - Ela respondeu - Eles vão desconfiar!

- Você vem ou não? Não há ninguém: os sentinelas das esquinas já foram dormir...

- Ok... - Disse Maria Fé - Pra onde?

- De volta ao meu carro...

- Você acha que ele ainda vai estar lá?

- Ninguém sai da cidade. Quem poderia mexer no carro?

Maria Fé concordou.

- Melhor não irmos pelas ruas principais. - Ela disse - Eu conheço bem o terreno. Podemos ir pelo caminho mais curto até o limite da cidade e depois contorná-la. Ninguém vai nos seguir depois que sairmos...

Silenciosos como as cobras, os dois jovens ganharam a noite quente e escura, em direção à mata.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 7

O Delegado Ameixeiras levou os dois à casa de Maltauban. De longe, Ricardo pôde ver enquanto dois homens tiravam - arrancavam seria mais exato - as portas da frente da casa. De lá de dentro, saiam duplas atrás de duplas de pessoas carregando outras portas...

Notei que Ricardo também percebeu que em cada esquina da cidade, havia uma dupla de 'sentinelas' observando quem ia ou vinha.

Quando finalmente foram deixados sozinhos, já de noite, os dois jovens algemados deitaram-se na cama da casa sem portas. Ricardo já tinha passado pelo vexame de não conseguir mijar na frente de Maria Fé ("Ainda mais com um nome desses!", reclamou) mas o delegado garantiu a ele que o costume superaria essas vergonhas.

Maria Fé, por outro lado, parecia bem à vontade.

- É o treino. Eu vivo aqui. Nunca fiquei sozinha um dia de minha vida. É engraçado como a gente pode se acostumar a qualquer coisa.

- Então, ninguém nunca fica sozinho?

- Nunca...

- Por que?

Maria Fé deu de ombros. Quem sabe? Velhas lendas e superstições. Modus vivendi. Era como o frango com macarrão de domingo. Como as religiões. A gente não acredita completamente, mas por via das dúvidas, segue. E aquilo acaba fazendo parte da gente.

Foi o que explicou a garota.

- Você nunca pensou em confrontar as tradições?

- Várias vezes... Mas daí eu cresci.

Ricardo sentiu-se ligeiramente ofendido. Virou-se de lado, tendo que ficar com a mão esquerda às costas, por causa da algema.

- Fujo na primeira oportunidade! - prometeu, em voz baixa.

- Hum-hum - concordou Maria Fé, com certo descaso. - Posso assistir um pouco de TV?

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 6

Eu continuava no meu canto, mas quando o prefeito disse aquilo, quis sair em defesa do rapaz. No entanto, percebi que ele não tinha entendido a frase de Carvalho como uma ameaça. Olhava confuso para o homem gordo e calvo que sentava à sua frente.

- Em nossa cidade, temos duas regras que precisam ser seguidas. Elas são para o seu próprio bem.

- Olha, - disse Ricardo - eu só quero ir embora. Fica com as casas, eu não me importo...

- Ah, esse tempo já passou... - respondeu o delegado.

- Nós vamos levá-lo até sua casa. Vai ser sua, agora. É onde morreu o velho Maltauban.

O rapaz inquietou-se. Gritou e esperneou e foi controlado pelo delegado que, apesar de bem mais velho e com aparência frágil - a não ser pelo bigode viril - sabia imobilizar alguém. Ao mesmo tempo, o prefeito usava o telefone, chamando alguém.

***

Ricardo passou algum tempo se debatendo contra a algema que o prendia a um pesado banco de ferro fundido colocado na lateral do saguão da prefeitura, até que viu entrar um trio: um casal e uma jovem que aparentava ter menos de 20 anos. Os cabelos dela eram amarelos descoloridos e ela usava maquiagem escura ao redor dos olhos.

O trio conversou com o Prefeito Carvalho por vários minutos, a menina olhando de soslaio para o rapaz. Por fim, Ricardo a viu balançar a cabeça positivamente.

O casal - Ricardo pensou que fossem os pais da garota, pelas semelhanças físicas - deixou a prefeitura e ela foi trazida até ele.

- Ricardo Araucária - disse o delegado, soltando o lado da algema que o prendia ao banco e fazendo-o ficar de pé. - Conheça Maria Fé Ameixeiras, minha sobrinha. Cuidado, pois é a única que eu tenho...

E, ao fim da frase, algemou o pulso de Maria Fé, atando-a a Ricardo.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 5

- Ok, rapaz, você está preso! - agiu rapidamente o delegado. Girou o jovem com facilidade e, auxiliado pelo prefeito, algemou-o. Então começamos todos a voltar para a cidade.

- Meu carro! - O jovem protestou. Eu imagino que seus instintos o avisavam que havia se metido numa encrenca e o carro parecia sua única chance de escapulir.

- Mando alguém pegar daqui a pouco... - Mentiu o delegado - Não é como se alguém fosse roubá-lo, nesse fim de mundo.

- Por que é que eu estou sendo preso??

- Você não está realmente preso, - Disse o prefeito - mas precisamos conversar. Temos muito o que conversar...

Pelo resto do caminho reinou um silêncio assustado. Os prédios baixos e casas da cidade foram aparecendo. O grupo foi se dispersando aos pares ou trios e no final, éramos só nós quatro: o Prefeito Carvalho, o Delegado Ameixeiras, Ricardo Araucária e eu. Eu percebia o olhar de Ricardo, vasculhando o cenário. Fixando a atenção na mãe com os filhos amarrados à cintura, nos adolescentes algemados saindo em animados gritos da sorveteria, na dupla de velhinhas na janela, tão próximas.

Atravessaram a praça e entraram numa casa esverdeada, que funcionava como delegacia e prefeitura. Percebeu que não havia escritórios ou saguões. Era apenas um grande vão, com linhas no chão demarcando espaços, mas sem nenhuma parede.

O delegado puxou uma cadeira e levou Ricardo a se sentar nela. Sentou-se ao seu lado, enquanto o prefeito se acomodava atrás da grande mesa que dominava o ambiente.

- Bem-vindo a Mata Verde... - Sorriu com tristeza o prefeito - Sinto lhe informar que você vai morrer aqui...

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Mata Verde - Cap. 4

Ah, eu nem vou tentar fazer o suspense barato: Ricardo entrou na cidade. É claro, ou a história acabava aqui. Ele entrou. Mas não foi sem esforços que as pessoas o deixaram entrar.

Uma das regras de uma cidade como Mata Verde é: ninguém sai. É por isso que é tão importante não deixar ninguém entrar. E os mataverdenses bem que tentaram. Gesticularam para um Ricardo confuso que se aproximava devagar.

Quando estava a três passos da linha que limitava a cidade - linha essa desenhada no chão, bem visível - o delegado sacou seu revólver e apontou para a perna do rapaz.

- Eu disse nem mais um passo - repetiu o delegado e Ricardo parou. Estava assustado, mas não tanto quanto os olhares que se fixavam nele. Houve um instante de tempo suspenso e então Ricardo sentiu uma movimentação aos seus pés. Uma cobra-verde de pouco mais de meio metro saia do meio dos troncos usados na barricada. Ora, qualquer um ali sabe que a cobra-verde chega a ser inofensiva, mas Ricardo era um rapaz da cidade.

No momento seguinte, ele estava entre nós, agarrado ao prefeito.

O grupo suspirou, vencido. A cidade ganhava mais um morador.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mata Verde - Cap. 3

O carro de Ricardo virou a curva na estrada de terra e ficou visível para nós. Os homens de Mata Verde haviam jogado todo tipo de entulho - toras de madeira, pedras e até uma carcaça de preá encontrada no caminho - para bloquear a estrada. Ricardo teve que parar o carro. Era um rapaz bonito, forte e moreno. Se eu não estivesse na idade e nas condições atuais, poderia até vir a me apaixonar por ele...

Ele andou pela terra macilenta e parou em frente à barricada improvisada.

- Nem mais um passo! - Disse o delegado Ameixeiras para o rapaz. Todos do grande grupo que seguiram da cidade até aquele ponto da estrada se paralisaram, os ombros se juntando uns aos outros, para formar uma nova barricada mais macia ao tato, mas muito mais dura na intenção.

Ricardo tirou da pasta de couro que trazia consigo diversos papéis.

- Eu tenho o direito! Eu tenho...

O Prefeito Carvalho adiantou-se, interrompendo o rapaz.

- Meu filho, - disse, em tom condescendente - eu sei que você acha que estamos querendo impedi-lo de entrar por ganância ou alguma coisa assim. Mas não é verdade. Estamos pensando em você, tanto quanto pensamos em nós.

- Acho difícil de acreditar... - Disse o rapaz, começando a passar por cima da barricada para se aproximar do prefeito. Mas ele parou, frente aos protestos do grupo, e eu pude ver claramente a confusão em seu olhar: os protestos não eram raivosos. Pareciam preocupados. Como alguém que diz "não suba no muro, menino, ou você pode cair e quebrar a cabeça".

domingo, 27 de abril de 2008

Mata Verde - cap. 2

Como toda história, o que me interessa contar vem de uma mudança. Que começa com uma morte, a de Maltauban Araucária. E uma herança, recebida por Ricardo Araucária, seu primo em terceiro grau.

Entendam: Maltauban era um dos habitantes com mais posses em Mata Verde. Tinha três casas na cidade, um pequeno prédio comercial e uma fazenda.

Ricardo, que nunca havia pisado em nossa cidade - bom, eu não sou exatamente daqui, mas já moro há mais de 30 anos, posso me considerar Mataverdense, não posso? -, soube da morte e das propriedades. Obviamente, não quis abrir mão de suas posses. O prefeito Carvalho bem que lhe ofereceu ficar com a fazenda e esquecer os imóveis dentro da área urbana. Ricardo não acreditou quando o prefeito disse que elas não tinham o menor valor.

Eu estive presente à reunião em que se tomou conhecimento da chegada próxima de Ricardo à cidade. Havia uma certa raiva no ar, fervida no medo da mudança. Mata Verde custou muito a chegar numa homeostase e o equilíbrio era sútil. Por isso, saiu-se em comitiva para receber o intruso nos limites da cidade.

Mata Verde - Cap 1

Não sei porque resolvi contar essa história. Talvez seja o fato de ela trazer uma importante lição de moral para as crianças, mas duvido. O mais provável é que seja só tédio.

É a história de Mata Verde, uma cidade perdida no meio da floresta equatorial, no estado do Mato Grosso. As roupas das pessoas estão constantemente encharcadas de suor ou chuva. O ar é denso, deixa as coisas mais lentas, como se os habitantes da cidade se movessem numa gelatina incolor e sem sabor.

Mata Verde é uma cidade incomum. Já foi uma das cidades mais prósperas do estado, aglutinando o comércio da região. Mas isso mudou. Nos últimos anos, Mata Verde fechou sua porta e suspendeu as boas-vindas. A cidade se esforça para sumir do mapa.

Hoje, ninguém mais vem à cidade. Hoje, ninguém sai daqui. É uma cidade congelada no espaço e no tempo. A população diminui sensivelmente: cada ano, há menos moradores. Muitos morrem, poucos tem coragem de nascer aqui.

Mas, o principal de tudo: em Mata Verde, ninguém nunca está sozinho.

sábado, 29 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 12 (final)

- Seu filho também é muito fiel, Lord...

O vidente afastou o corpo da mesa, devagar. Suas mãos continuavam escondidas.

- Ele confessou a morte de Vargas.

Lord Morfetus sorriu um sorriso leve. Orgulhoso.

- Mas eu sei que não foi ele... - continuou J. K. - porque Vargas não tem barba branca... Você teve a capacidade de matá-lo com a mesma navalha com que se barbeia, não é? Eu imagino que teve que improvisar, na pressa...

- Como é que você me encontrou? - perguntou o vidente, rompendo, enfim, seu silêncio.

- Qualquer outra pessoa não acreditaria em mim... Mas acho que você vai. Quem me trouxe aqui foi nosso amigo comum, que está agora na sua bola de cristal. Sorte minha que eu não tenho que contar essa parte da história no seu julgamento! - J. K. soltou uma gargalhada rápida. - Eu quero a navalha que você usou.

O vidente lançou-lhe um olhar sarcástico. Depois, refletiu e entendeu que fazia pouca diferença. Levantou-se, as mãos vazias apoiaram-se na mesa e J. K. sentiu um rápido alívio.

Foram juntos até o banheiro do pequeno apartamento na periferia da cidade. A navalha estava na pia. Aberta. O vidente a pegou e virou-se, devagar.

Recebeu o impacto da bala no peito, que o jogou contra o espelho, estilhaçando-o. Enquanto escorregava para o chão - a navalha deslizando pelos dedos sem força - encarou a arma do perito, ainda fumegando.

J. K. esperou por alguns segundos, enquanto controlava o ódio para não atirar mais vezes no corpo, esvaziando o pente de sua pistola. Ou não conseguiria vender a história de que o vidente tentou atacá-lo e que teve que se defender.

Ligou para o chefe, deu depoimentos e, de noite, a sós, num matagal longe da delegacia, queimou as fitas de vídeo do motel.

Sentiu saudades do amigo. Para o resto da vida.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 11

J. K. se recostou na cadeira.

- Bom, - disse - vamos fazer diferente: ao invés de me contar o que eu não sei, eu vou te contar o que eu já sei.

O vidente lançou-lhe um olhar curioso.

- Eu já sei - o perito continuou - como Adriano fez com que a esposa e o sócio se matassem. Sei disso porque encontramos pêlos sintéticos no lugar onde um investigador da polícia foi morto. Conversei com o dono do circo para descobrir que o único empregado que usava fantasia com pêlos era um novato. Alguém que o pai pediu ao dono que contratasse. Ele se vestia de gorila, para o show de Monga, a mulher que se transforma.

'Eu sei mais, já que encontramos Adriano e ele está preso. Ele contou que forjou a própria morte com ajuda do pai. Como ele não é casado legalmente, o pai foi chamado para identificá-lo. Eles só precisaram colocar alguém - um mendigo - no carro de Adriano e explodi-lo num acidente qualquer.

'Ele confessou - percebeu que a gente já sabia de tudo e tinha como provar, examinando o espelho e o abajur da sala - que, um dia depois do acidente, voltou para casa e encontrou a esposa com o sócio na cama. Eles não o viram. Mas ele telefonou para cada um dos dois, marcando um duelo no dia seguinte. No mesmo horário.

'Usando o mesmo truque de espelhos que é usado pra transformar Monga em gorila, ele projetou sua imagem na janela. Era madrugada, não havia luz, então o efeito foi perfeito. Tanto a esposa quanto o sócio viram um Adriano de frente para eles, puxando uma arma.

'Ele deu um pouco de sorte: os dois acertaram perfeitamente o tiro. Se não desse tanta sorte, ele estava lá, armado, pra terminar o serviço. Tenho que admitir, foi um plano e tanto...'

O vidente continuava parado, olhando para J. K. Suas mãos estavam escondidas embaixo da mesa.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 10

- Se você é mesmo vidente, o que eu vim fazer aqui?

- Amor... E trabalho...

- Não é o que todo mundo quer?

- Ah, mas no seu caso, as duas coisas estão andando juntas, não é? E tem algo muito proibido sobre esse amor, que põe em risco muito mais do que o trabalho...

- É. Tem razão... Há quanto tempo você é vidente?

- Acho que desde que nasci. Eu tenho esse dom de aprisionar espíritos em vidro.

- Olha... Sabe que eu acho que tenho o mesmo dom?

- Pra dizer a verdade, sei sim. Agora, dentro da bola de cristal, há um espírito que me diz que você já o conhece... Já conversaram... Através de um copo?

- Agora você conseguiu me surpreender de verdade... Vim aqui por causa do copo...

- É um bom espírito. Quer muito te ajudar...

- Acho que ele quer mesmo me ajudar.

terça-feira, 25 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 9

J. K. estava sentado na sala de comunicações há quase quatro horas. Não conseguia se mover. Não foi mandado para o local do crime porque seu chefe viu como ficou abatido. Todos sabiam da grande amizade entre os dois. Eram compadres, jogavam buraco com as esposas pelo menos uma vez por semana.

J. K. nunca soube como é que o investigador ficou sabendo. Soube que havia algo estranho quando enfim saiu da sala. Era o sorriso sarcástico na cara de alguém que se desfez ao vê-lo. Uma cara de espanto mal disfarçada de outro. Até chegar ao centro da sala de investigações.

O investigador, um sujeito novo, recém-concursado, gabava-se:

- Por isso, acho que foi crime passional! Não tem nada a ver com o que ele tava investigando!

Um silêncio escuro apossou-se da sala quando perceberam a presença de J. K. O perito sentiu um arrepio no final da coluna.

- Do que é que você está falando? - perguntou, aborrecido e surpreso.

- Desculpa, J. K. Eu sei que o cara era seu chapa, mas o caixa d'um motel reconheceu o Vargas... Ele entrou lá, hoje, com um cara...

O queixo de J. K. atingiu o peito.

- Pois é, cara. A gente nunca conhece completamente as pessoas! - arrematou o detetive.

J. K. correu para a sala do delegado.

- Você não pode divulgar isso!

O delegado já o esperava.

- E não vou, J. K. O cara era meu amigo, também. Minha esposa e a esposa dele são amigas... O problema é que, se foi mesmo crime passional, eu não tenho como evitar... Não podemos descartar essa linha de investigação.

J. K. se sentiu enredado. Não era só a família de Vargas que estava em jogo. Quase se arrependeu das duas horas que passou com o amigo no motel.

- Me promete que você não vai deixar ninguém falar sobre isso até termos certeza!

- Tudo bem, J. K. Ninguém vai falar.

O investigador entrou na sala e disse:

- Já conseguimos o mandado pras fitas de segurança do motel. Estou indo pra lá pegar agora. Aí, a gente vai ter o primeiro suspeito!

domingo, 23 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 8

O celular de J. K. tocou. No visor, o nome de Vargas piscou. J. K. sorriu, mas não atendeu imediatamente. Saiu da sala onde estava e foi para o corredor. Procurou ficar só, então abriu o flip do telefone e disse, em voz melodiosa:

- Oi, tesão...

Um rosnado borbulhante foi o que ouviu de volta. Vargas lutava contra o sangue que escorria para dentro de sua garganta rasgada e inundava sua epiglote. Tossiu e cospiu, e J. K. soube que era sério. Muito sério.

Correu pelos corredores, em direção ao laboratório de comunicação. Ouviu um carro acelerando e se distanciando pelo celular. Entrou no laboratório gritando. Eles precisavam rastrear a ligação.

Demorou 3 minutos para conseguirem o local.

Os sons já haviam parado do outro lado do celular.

Alguns minutos depois, ouviu a sirene do carro da polícia chegando ao local do crime. Desligou o seu telefone. Havia um silêncio pesado na sala. Todos conheciam Vargas. Todos sabiam que um policial havia morrido enquanto ouviam. A confirmação chegou em seguida.

J. K. estilhaçou seu celular no chão de cerâmica. Babava de raiva. Foi a única forma que encontrou para não chorar efusivamente.

terça-feira, 18 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 7

O bilheteiro do circo indicou o cartomante a Vargas. O detetive ainda não sabia seu verdadeiro nome, então perguntou por Lord Morfetus. A tenda do circo já havia sido desmontada. Eles se preparavam para mudar de cidade.

Encontrou o vidente em uma longa túnica, atrás da pequena tenda com a placa que indicava seu nome artístico. Ele mexia na traseira de uma caminhonete que tinha o nome do circo estampado nas laterais.

- Lorde Morfetus? - Perguntou, se sentindo um pouco bobo.

O homem olhou para ele com ar desconfiado, enquanto examinava a credencial que Vargas lhe estendia.

- Eu gostaria de conversar sobre a morte de seu filho, por um instante. - Falou, tentando passar tranqüilidade no tom de voz. Estava, agora, próximo ao velho homem, entre a caminhonete e a tenda. Ouviu a lona mover-se e virou.

Um grande gorila saia da tenda.

Instintivamente, sacou a arma, protegendo com o corpo o vidente. Mas o gorila arregalou os olhos, levantou os braços e fez um sinal de 'pare' para Vargas. Devagar, levou as mãos ao pescoço e retirou a máscara.

Era Adriano Kramer. Reconheceu-o imediatamente.

Então sentiu a navalha em seu pescoço.

- Deixa meu filho em paz! - rosnou o velho, e o sangue escapou com abundância pela garganta de Vargas.

domingo, 16 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 6

J. K. acordou assustado. Sonhou a noite inteira que tentava, sem sucesso, quebrar o copo. Levantou-se com cuidado, para não acordar a esposa. Na cozinha, tomou um copo inteiro de café sem açúcar.

Olhou para o armário. Pegou o copo de café e levou à água da pia.

O copo estourou em sua mão.

J. K. ficou paralisado até sua parte racional/científica começar a funcionar. Antes disso, apenas olhou a mão, onde cacos de vidro e sangue se misturavam no jorro de água.

Água fria, café quente, dilatação do vidro. Sua mente científica tentava desprezar detalhes e se concentrar no racional.

Enrolou a mão num pano limpo e ligou para Vargas. Precisava de uma carona para um hospital. Sua mente racional sabia que os machucados foram superficiais. Nada que precisasse de pontos. Mas Vargas se colocou imediatamente à disposição.

O prédio onde o carro de Vargas entrou tinha lençóis esterelizados...

sábado, 15 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 5

Vargas conversou com o detetive que havia investigado a morte de Adriano Kramer. Não havia muito o que contar. Acidente de carro. Mas algo interessou Vargas: não fora a esposa que reconhecera o corpo, fora o pai da vítima.

Com o endereço do pai - Raul Kramer - Vargas entrou em seu carro.

O endereço era uma casa num ponto distante da cidade. Não havia ninguém na casa, quando Vargas chegou. Olhou pela janela. A casa parecia abandonada. Precisaria de um mandato.

Tocou na casa vizinha, meio sem esperanças, apenas para não perder a viagem. Ouviu gritos de criança. Pelo menos três, concluiu. Quando a porta abriu, uma mãe cansada estava atrás dela.

- Cala a boca! - ela gritou para as crianças, com uma expressão de raiva e vergonha, enquanto examinava as credenciais de Vargas. Convidou-o a entrar. Sentaram-se na sala e os meninos acumularam-se atrás do sofá onde a mãe estava. Pareciam uma escadinha, talvez 7, 5 e 3 anos. Sorriu para eles.

- Você já matou alguém? - perguntou o mais velho, ao ver o distintivo, mas foi reprimido pela mãe.

Ela contou que, há uma semana, dois homens se encontraram naquela casa. Reconheceu Adriano pela foto. Vargas perguntou se ela poderia fazer um retrato falado do outro homem.

- Posso, - respondeu a mulher - mas sei onde encontrá-lo, se você precisa.

- Sabe? - espantou-se Vargas.

- Sim, tenho três filhos. - e, diante da incompreensão de Vargas - levei-os ao circo na semana passada.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 4

J. K. chegou em casa às 20h00. Sua esposa, professora universitária, só estaria de volta depois das 23h00. As 'crianças' estavam em outra cidade, cursando faculdade.

Ele sentou-se sozinho no sofá. Pensou no amigo, que ainda devia estar delegacia. Quis ligar para ele. Achou que não tinha o direito. As brincadeiras haviam deixado de ser brincadeira há tempo. Sentiam tesão um pelo outro e ficava cada vez mais difícil negar. Vargas o encurralava o tempo todo, mas J. K. não queria enganar a esposa. E ele sabia que era só isso: seu sentimento de honra com a mulher era a única coisa que o mantinha longe de Vargas. Sorriu, pensando se isso, por si só, já não era traição o suficiente.

Foi até o armário e tirou o copo com letras. Há alguns anos, o psiquiatra o havia convencido que era ele quem empurrava o copo. E que era seu inconsciente que falava com ele.

Ele nunca contou ao médico das vezes em que sentia uma corrente elétrica e tirava o dedo, e de tudo que o copo lhe dizia nessas ocasiões. Achou que, se contasse, ia piorar a situação.

Esparramou as letras no chão e desejou conversar com seu inconsciente: ele lhe responderia se a escolha devia ser feita? Se devia se entregar a Vargas ou se devia continuar a farsa civilizada com a esposa?

No entanto, seu dedo pareceu eletrocutar-se quando o copo partiu, descontrolado. Recolheu a mão e repetiu alto as letras:
F-R-E-N-T-E-A-F-R-E-N-T-E-C-O-M-A-R-M-A

O copo caiu. Frente a frente com arma? Intuiu que era a respeito do caso que começara no dia anterior.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 3

No dia seguinte, encontraram-se no refeitório para trocar informações preliminares. J. K. começou:

- Reconstituímos o que deu do vidro. Dois buracos próximos. Os tiros foram quase simultâneos, o dele milisegundos antes, pelo que deu pra perceber pelos ângulos de entrada das balas. Havia pólvora na mão e na roupa de ambos. E as balas também coincidem: um matou o outro. Se viram pela janela e atiraram. Pampam! Os dois no chão...

Tomou um gole de café enquanto observava a reação de Vargas. O detetive sorria como se já soubesse. J. K. deixou o melhor para o final, mas antes perguntou:

- E você, alguma coisa?

- Bom, - disse Vargas, abaixando a xícara fumegante de café - ela era viúva. Há muito pouco tempo. O marido morreu num acidente de carro há três dias. Adriano Kramer. Era procurado pela polícia. Tinha dois mandatos por fraude fiscal, um por formação de quadrilha e um por estelionato... Coisa grande...

Vargas mordeu o bolo de fubá e continuou, cuspindo farelos.

- O morto era Rafael Farah. Sócio de Adriano. Apesar disso... Você sabe mais do que contou, não sabe? - Vargas vasculhava os olhos sarcásticos do amigo.

- Bom, foi encontrado sêmen na morta... Bastante, digno de uma atividade freqüente...

- Não me diga...

- Sim, o dna indica que o sêmen era do morto...

segunda-feira, 10 de março de 2008

Duplo Homicídio - Cap. 2

O entregador de jornal gesticulava, exacerbado, e falava muito rápido, sobre muitos detalhes. Mas era de pouco uso. Havia pulado da kombi, às 6h00 da manhã, para deixar jornais no prédio ao lado e viu o sujeito deitado na grama. Como conhecia bem a vizinhança, não reconheceu o homem. Comentou com o motorista da kombi, que parou bem em frente à casa. Os dois perceberam o sangue, ainda vermelho (agora já tendia para o marrom), no peito da camisa branca e ligaram para a polícia.

Foi assim que tudo começou.

J. K., da criminalística, chegou e o detetive pediu licença ao entregador. Ele continuou falando e gesticulando enquanto Vargas se afastava.

- J. K., seu porco sujo! - gritou, brincando. Eram amigos há muito tempo, desde que entraram para a polícia, 20 anos atrás. Naquela época, o bigode de Vargas ainda era castanho e J. K. ainda tinha cabelos na cabeça.

Após um abraço e comentários curtos sobre as patroas e as crianças, o perito foi examinar a cena. Vasculharam a cozinha. Na sala escura pelas cortinas cerradas, J. K. acendeu um abajur. Um homem surgiu à sua frente, fazendo os dois pularem de encontro um ao outro. Era só um reflexo no grande espelho em cima da penteadeira.

Os amigos riram, mas Vargas não perdeu a oportunidade de dar um belo e safado beliscão na bunda de J. K.